Moeda nova

20 abr • A Vida como ela foiNenhum comentário em Moeda nova

O Brasil é campeão em troca de moeda. Trocamos de moeda como quem trocava de cueca. Patacão, réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, real, uma babilônia que não resultou em maiores comoções populares. Numa dessas mudanças, nos anos 80, o Marcus foi comprar uma erva da boa de uma traficante famosa da época, a Nega, que tinha um entreposto de cannabis na Vila Bom Jesus, Zona Leste de Porto Alegre

Boca braba. Marcus estava duro, duríssimo. Fruto de uma breve incursão paraguaia, só tinha cédulas de guaranis. Um monte deles mal pagava uma cerveja. Foi à boca, comprou a erva e mostrou as notas para a Nega.

– Que dinheiro é esse que eu não conheço?

Marcus até pensou em dizer que era alguma moeda europeia, mas o portfólio de clientes da empreendedora era vasto e convinha não arriscar.

– É o dinheiro novo que vai sair, o cruzeiro supernovo

Desconfiada como convém a alguém do ramo, Nega cheirou as cédulas e arriscou. Marcus saiu de fininho com as trouxinhas de maconha. Dias depois, ficou sabendo que Nega despachara um “procura-se vivo ou morto” na Vila Bom Jesus e arredores. Riram da sua cara quando ela tentou passar o cruzeiro supernovo adiante.

Por sorte, a vendeta não se consumiu. A Nega viu que o futuro só mostrava uma cova rasa sem nem mesmo sete palmos de fundura. Largou da vida e poucos meses depois deixou o tráfico e se jogou nos braços de Jesus.

Não o lá de cima, mas um carroceiro chamado Jesus.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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