• Simonal da Latinha

    Publicado por: • 19 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…todo mundo espetava seu guarda-sol no mesmo espaço, de preferência”

    Vamos concordar que a velocidade com que as coisas estão mudando é assombrosa. O que valia ontem não vale mais, e das 18h em diante o que valia hoje já não vale mais nada. Então é óbvio que todos nós temos saudades dos carnavais e dos veraneios antigos. Outro dia vi um rapazote dizer que queria voltar no tempo, que o veraneio de 2005 em Capão da Canoa é que era bom. Imagina, 2005 foi ontem. Agora, ele tem razão. Não consigo achar graça numa cidade do Litoral que sofre de congestionamentos em julho.

    Então o que deixam para mim e a Tramandaí dos anos 1960 e 1970? Ficávamos num espaço à esquerda do Bar Panorama, aquele prédio redondo que foi demolido há alguns anos. Conhecia-se a vizinhança porque todo mundo espetava seu guarda-sol sempre no mesmo espaço, de preferência. Minha mulher gostava de caipirinha, que se buscava no bar Gaivota. Já a cerveja que eu e minha sogra gostávamos chegava de pé-entrega.

    Explico. Um rapaz que apelidamos de Simonal, ou Simona, porque parecido com o cantor, abastecia aquele trecho todo com latas de Brahma para adultos e picolés para a criançada. Até aí morreu Neves, dirão vocês, mas esperem eu molhar o bico: o Simona tinha caderninho. Anotava a despesa e depois do almoço ia nos apartamentos e casas para receber o devido. Nunca levou calote, me contou certa vez.

    Como dizia o Adoniran Barbosa para os Demônios da Garoa, botem sentido no prato e vejam se era bom ou não era. Isso tudo foi para o espaço. Durou anos e anos e virou espuma de onda quebrada na areia.

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  • Uma noite de tangos

    Publicado por: • 12 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…todos aproavam a Tia Dulce para tomar aquela sopa de cebola”

    O trecho à direita de quem sobe a avenida Independência abrigou casas lendárias de Porto Alegre, a Tia Dulce e uma casa de tangos nos fundos do mesmo prédio, que mudou de nome várias vezes. A Tia era da Dulce e do seu Cassel, um descendente de alemães que lutou na II Guerra Mundial ao lado dos americanos. Certa vez, ele me mostrou a Colt.45 que usou no conflito. O período áureo da Tia foi nos anos 60. Quando os bares e boates da Indepê fechavam, todos aproavam a Tia para tomar a sopa de cebola. Nunca mais alguém fez algo igual – salvo o antigo restaurante da Ceasa de São Paulo.

    A casa de tangos, no fundo do prédio, foi de um argentino aquerenciado cujo nome me escapa. Viúvas, desquitadas ou solteironas chegavam aos magotes, suspirando quando ele cantava “Mi Buenos Aires querido”. Os predadores noturnos sempre abatiam alguma vítima carente. O proprietário era um cavalheiro, mas certa noite alguém o tirou do sério.

    Certa madrugada um grupo de noctívagos saiu do bar do hotel Plazinha e foi para lá. Com aquele ar sofrido que é obrigatório para um cantor de sentimento triste que se baila, segundo o compositor Enrique Santos Discepolo, o cara encantava cerca de 30 pessoas, a maioria mulheres maduras, naquela idade que um dia um cretino chamou de “a melhor idade”.

    A certa altura do show, o cantor jactou-se que conhecia centenas de letras de tangos, sabia de tudo de Le Pera a Discepolo passando por Edmundo Rivero, do Viejo Almacén. E lançou um desafio, que pedissem qualquer música. Foi a deixa para um dos gaiatos.

    – Canta aí um tango que não termine com “tcham-tcham!”

    Existiam, claro, mas na hora deu branco no cantante. Pensou, pensou, ficou vermelho, vacilou. Quando lembrou era tarde, Inês já era morta.

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  • Um dia daqueles

    Publicado por: • 11 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…não estava na sala. Vou em várias outras e nada. Entro nos dois banheiros”

    Termina o Jornal Gente da Rádio Bandeirantes AM e desço para o estacionamento. Entro no carro, ligo o motor e olho pelo retrovisor antes de dar ré. Os faróis da Ecosport do comentarista esportivo Luiz Carlos Reche estão acesos. Desligo o carro, subo dois andares e tento localizá-lo. Não estava na sala. Vou em várias outras e nada. Entro nos dois banheiros e o chamo pelo nome. Nada. Não está nos estúdios, nem na Central. Peço para a telefonista localizá-lo. Ela não o acha. Passo por passar na sala dele e olho a portinhola de vidro, o Reche está lá. Devia estar catando dinheiro no chão.

    – Ô Reche, os faróis do teu carro estão ligados. Tua bateria se vai rápido desse jeito.

    O meu amigo mal e mal levanta os olhos.

    – Eu sei. Faço isso para alavancar as vendas da minha fábrica de baterias para carros, a Baterias Reche.

    Assim, sem rir nem nada. Sério. Fiquei segurando a porta aberta por uns bons minutos.

    – Reche, eu vou contar essa história no meu site.

    – Pode contar. É a mais pura verdade.

    E ficou dedilhando algum texto no computador. Me senti um inútil. Ia ser um dia daqueles.

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  • Os malucos

    Publicado por: • 10 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…o passageiro entra em pânico e começa a rezar, pede para o cara parar”

    Há dias comentei na página 3 do Jornal do Comércio que o número de malucos no trânsito está aumentando de tal maneira que em breve eles serão maioria e nós, os normais, é que seremos acusados pelas tragédias. Lembrei de duas piadas antigas sobre o tema. Em uma, o sujeito entra com seu carro na Free Way na contramão e afunda o pé. Com o rádio ligado, ele ouve uma notícia urgente dando ciência que há um maluco na contramão na via expressa. Ele então pega o celular e liga para a emissora.

    – Avisa aí que não é só um doido, são centenas!

    Na outra história, porto-alegrense apanha um táxi em Ipanema, Zona Sul, e manda tocar para o aeroporto Salgado Filho. O taxista aciona o taxímetro e se manda à toda sem parar em nenhum sinal vermelho, passa todos na sua roleta russa motorizada. O passageiro entra em pânico e começa a rezar, pede para o cara parar e nada, ele só vai. O último sinal antes do aeroporto está no verde. Surpreendentemente, o motorista pisa forte no freio e para bem embaixo da sinaleira.

    – Mas o que é isso, seu! Passas em todos os sinais vermelhos e para justo no que está aberto para ti? Qual é a lógica?

    O taxista o olha pelo retrovisor.

    – A lógica é que poderia vir um colega maluco por aí…

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  • A valentia do coronel Dudu (final)

    Publicado por: • 29 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…aqui só tem viado, xiru mesmo só eu”

    – Buenas que me espalho, nos pequenos dou de prancha, nos grandes dou de talho! Dito isso, o coronel Dudu olhou em volta para observar o efeito do desafio. Ninguém deu a mínima. Afinal, um baixinho pilchado, ligeiramente adernado e desafiador, não chegava a ser novidade no Pelotense. Atrás da caixa, o dono, João Mariano, mal e mal ergueu os olhos. Aí Dudu resolveu engrossar. – E não tem macho nessa casa! As coisas de sempre do ideário xiita gauchesco. Mesmo assim, ninguém se dignou a olhar de novo, a não ser para manifestar desagrado por estragar o clima. Afinal, beber é um ritual sagrado. – Aqui só tem viado e borracho de segunda… Nessa hora, João Mariano franziu o sobrolho. – …digo e repito, só viado! Xiru mesmo só eu! A Mesa Um, irritada, desandou a gritar para que Dudu encerrasse a performance e fosse curtir o porre noutra freguesia. Vai gritar num CTG, nanico de merda! Mesmo enxergando apenas uma densa neblina, Dudu radicalizou. Foi para trás do balcão, subiu num caixote que era usado para tirar bebidas do alto das prateleiras e voltou a desafiar a platéia. – E quem quiser me encarar, estou aqui para o que der e vier! Na mão ou na adaga! Aqui ou lá fora, apareça quem for homem! João Mariano deu um suspiro. Abaixou-se, pegou um facão de derrubar pinheiro de 20 metros, deu a volta e, com cara de quem foi Dr. Jekyll e virou Mr. Hyde, deu um planchaço no balcão de mármore. O som resultante foi algo horripilante. Durante muitos segundos, aquilo ressoou como as trombetas do juízo final. Dudu estacou. Depois daquele dia, ele nunca mais ouviu direito. Foi sua vez de trocar de identidade – de Jekyll para Hyde numa velocidade espantosa. Desceu da caixa, humilde, cara de guri borrado, e saiu de mansinho. – A gente não pode nem mais brincar nessa casa… João Mariano deu um último olhar assassino para o coronel Dudu e voltou para a caixa. Por estas e por outras, por ter que agüentar todo santo dia borrachos assim, certo dia ele disse para a cozinheira Fifa que iria para o dentista e voltaria em duas horas. Nunca mais voltou. Sumiu. Nem deu notícias.

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