Divisão à brasileira

5 mar • Caso do Dia, Notas2 comentários em Divisão à brasileira

serasa

O Brasil se divide entre os que estão no Serasa e os que não estão. Cheguei a essa conclusão depois de ver não uma, mas duas enormes filas em cada lado do caminhão da Serasa estacionado no Centro de Porto Alegre, no Largo Glênio Peres. A imagem mostra uma delas, que chegou a encostar no Mercado Público. Na outra ponta, a multidão fazia a volta no antigo abrigo dos bondes até encostar no posto da Brigada Militar. A entidade toca um feirão para renegociar as dívidas dos consumidores. E olha que pode negociar também pelo aplicativo.

CODELOCO!

Como diz o pessoal da Fronteira Oeste. Era gente que não acabava mais. Eu não sei como funciona em outros países, mas gostaria de ver a reação de um economista ou empresário europeu ou americano ao ver a cena. Acho que todos eles tem seu SPC, mas filas físicas para renegociar, sei não.

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OS MANSOS

Como eu gosto muito de observar o comportamento e a linguagem corporal das pessoas em situações como essa, dei-me ao trabalho de caminhar bem próximo aos conformados – e pacientes – devedores. Não vi nenhum sinal de revolta ou raiva, pelo menos não explicitamente. Vi mais é esperança em voltar a ser uma pessoa normal capaz de fazer compras sem o temor da recusa por estar fichado.

FILA ALEMÃ

O Brasil não tem exclusividade em filas. É uma instituição mundial. Quase no final da II Guerra Mundial, já perto de maio, os alemães faziam fila quando encontravam alguma coisa aberta, como padarias, enquanto tiros de canhão dos tanques enchiam as ruas de crateras. Tem que ser alemão para enfrentar essa situação.

FILA POR DECRETO

Em meados dos anos 1970, quando eu mourejava na Folha da Manhã, o historiador Francisco Riopardense de Macedo me contou que as filas no Brasil foram criadas ou reguladas por decreto do governo Getúlio Vargas. Nunca conferi, mas deve ser verdade. Se bem que está mais para alemão que para brasileiro.

FILA POLITICAMENTE INCORRETA

Para que fique registrado nos anais da História, em décadas passadas, o gaúcho não falava fila, falava bicha. Nunca soube o motivo.

CAUSO VAI, CAUSO VEM…

…o professor e historiador Francisco Riopardense de Macedo, me fez ficar vermelho naqueles anos 70. Frequentávamos o Bar Pelotense, na rua Riachuelo. Ele morava em frente, e conversávamos com frequência. Certa vez, ele se queixou que a Folha da Manhã nunca tinha publicado uma entrevista sua. Como eu era pauteiro da Folhinha, elaborei uma pauta para que a Editoria de Cultura entrevistasse o historiador. Alguns dias depois um repórter novato o procurou.

Estava eu adentrando o sagrado recinto quando o professor veio na minha direção com o jornal amassado na mão. Estava possesso. Com seu português castiço e impecável – chamava todo mundo de senhor, não importando a idade – apontou o dedo na minha cara.

– Fique o senhor sabendo que o repórter do seu jornal escreveu meu nome três vezes e em todas elas escreveu errado!

Matou a cobra e mostrou o pau. De fato, uma vez estava grafado professor Riograndino de Macedo, de outra Rio-Pardense de Macedo e, na terceira, Riopardense Machado.

Dei razão à sua fúria. Se eu encontrasse o repórter naquele momento eu o mataria. E seria absolvido.

PENSAMENTO DO DIAS

Só acredito em coronavírus se o Coelho de Páscoa vier com máscara.

2 Responses to Divisão à brasileira

  1. Plinio Nunes disse:

    Tentei pesquisar a origem bicha, antiga expressão para o vocábulo atual fila. Não encontrei. Daí que a explicação que me veio à cabeça é baseada apenas no meu raciocínio. Não tem citação de nenhum filólogo famoso, que dê cacife. É o seguinte. A palavra bicha, no meu modesto entender, deriva da bicha que era muito comum aparecer nos intestinos, especialmente das das criañças. Sempre que pareciam pálidos ou não tinham vontade de comer diziam que os pequenos estavam atacados das bichas. O sentido da fila provém da forma comprida e sinuosa da Tenia solitária.

  2. Plinio Nunes disse:

    Bicha: verme em forma de fio.

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