• Os centavos de lá e os bilhões de cá

    Publicado por: • 12 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “… Se a senhora Sara Netanyahu deseja dedicar-se em tempo integral a recolher garrafas vazias…”

    O peruano radicado em Israel David Mandel escreveu esse texto sobre os últimos acontecimentos políticos de Israel. É autoexplicativo, e remete a comparações do tipo “lá e cá”. A tradução é do porto-alegrense Davi Castiel Menda. Ei-lo:

    Em Israel, se alguém leva garrafas de vidro vazias, de vinho especialmente, aos supermercados, recebe alguns centavos por garrafa. Parece que, nas recepções oferecidas pelo primeiro-ministro em sua residência, e provavelmente também em seus jantares privativos, os convidados bebem vinho, que é comprado com dinheiro do Estado e, portanto, ao final da refeição, há garrafas vazias.

    A senhora Netanyahu (esposa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, N.R.) foi acusada, em grandes manchetes, que costumava enviar seus empregados para devolver as garrafas vazias, recebendo moedas de centavos e não transferindo esses valores para o Ministério da Fazenda, e sim usando este dinheiro no seu próprio e reduzido orçamento, na residência do Primeiro Ministro.

    Um advogado altamente respeitado opinou que o pagamento feito pelos supermercados é para a pessoa que traz as garrafas vazias, e que, não necessariamente, se trata de quem comprou o vinho. O supermercado não exige prova de compra para quem traz essas garrafas. E o comprador tampouco tem obrigação de devolver as garrafas para o supermercado.

    Em outras palavras, o pagamento cabe a quem teve o trabalho de coletar as garrafas e trazê-las para o supermercado. Não a quem adquiriu os frascos. Se a senhora Sara Netanyahu deseja dedicar-se em tempo integral a recolher garrafas vazias em seu bairro, levá-las para o supermercado e obter alguns tantos shekels (moeda circulante em Israel), pode fazê-lo sem que isso seja considerado um ato criminoso.

    Quero esclarecer que este artigo não tem a intenção de fazer propaganda eleitoral a favor ou contra Benjamin Netanyahu, de quem até agora não suspeito que seja sócio de sua esposa na coleta de garrafas vazias.

    -x-x-x-

    Conclusão minha: eles contando centavos e nós aqui espantados os com bilhões afanados da Petrobras.

    Publicado por: Nenhum comentário em Os centavos de lá e os bilhões de cá

  • Rumo à perdição

    Publicado por: • 11 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…já vi artistas da última Flor do Lácio deixarem passar jacarés de seis metros”

    Esse mundo está tão maluco que até o corretor da Microsoft está se metendo de pato a ganso, alterando o sentido das palavras, abreviando nomes e o diabo a quatro. Escrevi reciclável e saiu reclinável, escrevi Ane e saiu Ana, escrevi Mariana e o idiota corrigiu para Maria. O mundo já era dos nerds e suas complicações, tudo é feito para complicar e nunca para simplificar. Agora estamos nas mãos desse cretino insensível e burro chamado corretor de texto.

    Vocês civis não sabem a bronca que é a revisão de textos de jornal. Não adianta quem escreveu revisar, ninguém é revisor de si mesmo. Revisão é uma ciência e não é só porque você está em algum curso de Letras ou algo assemelhado que sabe revisar. Já vi artistas da última Flor do Lácio deixarem passar jacarés de seis metros.

    E não esqueçam que revisor só arruma a grafia, concordância etc. Não pode alterar texto nem o sentido da frase. Só que esses corretores da Microsoft ou sei eu de quem mais fazem até isso.

    Publicado por: Nenhum comentário em Rumo à perdição

  • Uma amnésia carnavalesca

    Publicado por: • 10 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…pegou seu Corcel II e se mandou para São Leopoldo”

    Como já não se fazem mais carnavais como antigamente, também desapareceram os blocos do tipo “o que é que eu vou dizer em casa”, foliões que curtiram o Momo no xadrez. Folião desaparecer de casa para pular carnaval não chega a ser novidade. Bons e sólidos casamentos já foram pro saco por causa dessa compulsão. O problema é que, depois de algumas biritas, a prudência vai para o beleléu. Mesmo a dos casados. Ou melhor, principalmente a dos casados ou comprometidos. Naqueles tempos, repórteres e editores tinham que se desdobrar para cobrir os bailes nos clubes, os desfiles e as boates e ainda cobrir a reportagem policial.

    No final dos anos 60, um destes editores, de uma emissora de TV, saiu a serviço. Verdade que saiu a serviço, mas a serviço da paixão. O diabo é que o cabra tinha casado há pouco. Pulou, bebeu como um gambá, pulou de boate em boate e acabou no apartamento de uma ave de arribação. Acordou na quarta-feira de Cinzas, fedendo a uísque e lança-perfume, com a cabeça que era um porongo. Levou minutos para descolar o relé, mas quando descolou entrou em pânico. Nem mesmo tinha telefonado para a mulherzinha! E agora, qual a desculpa? Matutou, matutou, e fiat lux!

    Pegou seu Corcel II e se mandou para São Leopoldo. Estacionou defronte a uma praça, sol a pino, sentou num banco e esperou passar um casal bem-vestido e com cara de gente séria. Quando o casal passou na frente dele, ele fez uma cara de quem estava muito confuso e disparou:

    – Onde estou, meu Deus, onde estou? Como é meu nome, alguém sabe quem eu sou?

    Publicado por: Nenhum comentário em Uma amnésia carnavalesca

  • Um profissional do desarme

    Publicado por: • 6 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…conversavam animada e alegremente sobre viagens feitas e por fazer”

    Fui a uma agência bancária quarta-feira, tirei a senha, sentei em uma das tantas cadeiras à disposição e esperei minha vez. Um rapaz de 20 e poucos anos, de boné, sentado duas filas adiante da minha vê um senhor de idade entrar. Cumprimenta-o efusivamente, eles falam em voz alta de coisas em comum, o senhor falou que ia pagar algumas contas. O rapaz se oferece para pagá-las. Uma velhinha sentada à minha frente abre o bocão.

    – Mas o que é isso? Eu e outras pessoas esperando há horas para sermos atendidas e você se oferece para pagar as contas do seu amigo que chegou agora, isso é furar a fila! Mas que falta de respeito, seu moleque!

    O idoso fica vermelho, tartamudeia algumas palavras que ninguém entendeu, depois ficou quieto. A velhinha seguia vociferando. Foi aí que eu vi o que é um profissional de desarme em ação. Durante todo o discurso da velha ele não alterou sua fisionomia e posição. Ficou olhando para ela, na diagonal. Entre uma respirada e outra, ele gentilmente pergunta que sotaque era aquele que ela tinha.

    – Minha família é da Sicília, fique sabendo!

    Ele arregala os olhos.

    – Nossa, que bacana! Palermo, a senhora conhece Palermo?

    A velhinha baixa a voz um pouco.

    – Claro que conheço. Estivemos lá muitas vezes, por sinal…

    O rapaz segue amaciando o bife.

    – Eu acho a Itália tão bonita, a Sicília também. Não tenho recursos pra ir lá, mas gostaria muito.

    Ela murmura alguma coisa, algo como “que pena, o senhor ia gostar muito”, por aí. Para encurtar o causo, em minutos os dois conversavam animada e alegremente sobre viagens feitas e por fazer. Chegou a vez dela ir aos caixas. Ao sair, despediu-se alegremente do rapaz, uma das maiores caras de pau que vi na minha vida.

    – Tchauzinho, meu rapaz, cuide-se bem, fica com Deus.

    Nem olharam para o outro velhote nesse meio tempo. Eu olhei. O rosto dele custou a desavermelhar, digamos assim.

    Publicado por: Nenhum comentário em Um profissional do desarme

  • O espírito shoshone

    Publicado por: • 4 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…revelou que o cocheiro não tinha os dois molares, e que um dos dentes da comissão de frente estava cariado”

    Na década de 1970 um grupo de pândegos porto-alegrenses a serviço do hedonismo e do bem comer contratou os serviços de especialistas no ramo, um batalhão precursor para ver se o restaurante ou bar estava à altura dos comensais, como os antigos batedores indígenas a soldo da cavalaria norte-americana. Alguns deles desenvolveram técnicas espetaculares. Um destes batedores, um publicitário local, incorporou um famoso índio batedor da tribo shoshone chamado Coceira no Fiofó, a serviço do Exército americano no século XIX. Incorporou o espírito mesmo, achou que era índio com direito a ÚÚÚ e gritos com a mão na boca.

    Não estranhem o nome. Sabemos que os peles-vermelhas davam aos filhos o nome da primeira sensação ou visão na hora que a criança nascia. Voltando à vaca fria: o publicitário encabeça o grupo, que garimpa um cão quente autêntico. De tempos em tempos, o shoshone gaudério encostava a orelha no chão, pedia silêncio, e descrevia o estabelecimento em que iriam comer.

    – Carrocinha, de alumínio reciclado… latinhas de Skol, não… Skin… salsicha uruguaia Cativelli… é gremista, ôba… molho de tomate paulista, cebola de José do Norte…

    Para não deixar ponta solta na história do índio Coceira no Fiofó, seu espírito redivivo contou que o original morreu atropelado por uma diligência da Wells Fargo, em 25 de junho de 1876. Mesmo moribundo, forneceu a um alto oficial da cavalaria norte-americana a cor e idade dos cavalos e o retrato falado do cocheiro e até do vice-cocheiro. Mesmo nas vascas da agonia, conseguiu revelar que o cocheiro não tinha os dois molares, e que um dos dentes da comissão de frente estava cariado.

    Infelizmente, o militar que colheu seu depoimento não conseguiu transmiti-lo à agência de detetives Pinkerton, porque morreu algumas horas depois, contou Fiofó II. O indigitado oficial chamava-se Custer, general George Armstrong Custer. Desde então, o espírito do shoshone Coceira no Fiofó atravessa as brumas do tempo à procura de alguém que precise dos seus serviços.

    Nem sempre ele acerta. Da última vez, conduziu um grupo direto para uma carrocinha de churros.

    Publicado por: Nenhum comentário em O espírito shoshone