• A roupa nova do reizinho

    Publicado por: • 1 jun • Publicado em: A Vida como ela foi

    Até para se vestir esse país é complicado. E os diálogos com atendentes das lojas não raro beiram o surreal. Vejam essa. Jornalista porto-alegrense radicalizado – eu disse radicalizado mesmo – em São Gabriel veio à Cidade Grande Demais e se deu conta que precisava de camisas. Vai a uma loja do Centro de Porto Alegre e vê na vitrine camisa com dois bolsos em oferta. Bolso em camisa, sabemos todos, foi extinto em nome sei eu lá de que. Algum cretino fashion, certamente. Bueno. Ele pergunta ao atendente se tem tamanho GG ou 4, porque o jornalista em questão é verticalmente prejudicado mas tem ombros largos. O cara da loja o olha de alto a baixo, nem tão alto, aliás.

    – Essa marca de camisa tem que ser tamanho 5 e olhe lá. Experimente.

    O jornalista a veste e também o número 5 é pequeno.

    – O problema é que essa camisa é chinesa. Mas eu tenho uma nacional, mas só tem tamanho 1, e no seu caso a brasileira teria que ser 3.

    Vamos ver se entendi. Chineses mandam camisas para brasileiros sem dar pelota para nosso biótipo. Pelo visto, nem mesmo nadadores profissionais da China tem ombros largos. A loja brasileira só vende o tamanho 1 e teria que ser 3 para ficar bem no nosso pequeno mas largo homem.

    O macaco tá certo. Sem roupa não tem essa bronca toda

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  • O cara do caminhão

    Publicado por: • 29 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    Quando morreu o B.B. King, lembrei de um causo acontecido nos anos 1990, quando começou a onda de trazer bluezeiros americanos. Ele estava hospedado no hotel Alfred Porto Alegre, na rua Senhor dos Passos, que tinha um bar maravilhoso chamado Tyffany’s, decoração baseada no Harry’s Bar de Veneza. Um luxo. Sua época de ouro foi a partir do final dos anos 1970.
    Um guitarrista americano, homem de quase dois metros de altura cujo nome me escapa, tinha uma história igual a tantas outras. Um caminhoneiro negro que tocava blues como ninguém nas estradas dos Estados Unidos, até que alguém o descobriu, estava hospedado no Alfred. Certa noite estava eu no bar quando ele entrou, sentou numa mesa e pediu suco de laranja com rum. O barman o olhou com certa desconfiança quando ele fez o pedido.
    Outro freguês do bar sentou-se no piano e tentou, eu disse tentou tocar um boogie woogie. Sabem como é, usar a mão esquerda não é para qualquer um. Alguns compassos depois o bluezeiro se irritou, meio que tirou o cara a tapa do piano e, aí sim, ouvi maravilhado um BW à Luca Sestak. Depois que terminou, voltou ao seu suco de laranja com rum. Bati discretas palmas. O barman, que obviamente era zero em boa música, estava limpando um copo com um pano branco. Inclinou o rosto.
    – Quem é esse cara?
    – Um caminhoneiro- respondi.
    Ele terminou de polir o copo, colocou-o de volta na prateleira de vidro de costas para mim. Volteou a cabeça.
    – Logo vi.

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  • Pobre João

    Publicado por: • 27 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    O jornalista Gilberto Michaelsen, de Gramado, contou no site do colega Miron Neto que foi confundido com duas pessoas em um curto espaço de tempo. Da primeira vez o funcionário de um supermercado achou que ele fosse o prefeito; da segunda, um médico local o espinafrou achando que ele fosse o Miron.
    Lembrei de um acontecido dentro de um cinema nos anos 1950 em cidade do interior. O filme se desenrolava e um cara na plateia embestou que o espectador careca sentado na sua frente se chamava João. E comentava o filme com ele, era João pra cá e pra lá.
    – Ô João, tu viu essa do galã? Como pode alguém ser tão ingênuo!
    O da poltrona estava enlouquecendo, mas achou melhor não responder.
    – João, tu reparou que a mocinha só fingiu que beijou o namorado?
    Suspiro.
    – Mas que bosta de mocinho mais burro! Joãoêêê, como é que ele não viu a pistola na mão do cara, João?
    Ouvem-se soluços.
    – João de Deus, o cara é bom de briga, hein João!
    Ouve-se um choro convulsivo.
    – Tu já reparou que sempre tem gente espiando atrás da porta nesses filmes, hein João?
    O falso João levanta com tal velocidade que no vácuo quase arrasta a poltrona e senta numa poltrona no canto da primeira fila.
    Minutos depois ele recebe um tapa de mão espalmada na careca, acompanhado de uma voz com bafo de pipoca na nuca.
    Ah, tu taí, João? Tu sabe que tinha um cara igualzinho a ti sentado na poltrona da minha frente?

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  • Eles, robôs

    Publicado por: • 22 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    O avanço dos robôs não se dá apenas nas máquinas programadas para tarefas maçantes ou difíceis. Os robôs humanos estão – sempre estiveram, aliás, em toda parte. Tem uma tremenda vantagem tecnológica, em vez de baterias funcionam com ideologias, fundamentalismo religioso ou ideológico.
    Por não necessitarem energia elétrica, basta-lhes pão e agua, não descarregam nunca – mas viciam. E são muito mais baratos que os robôs mecânicos. A reposição é farta. Mesmo que tenham tendências suicidas, a linha de produção despeja a quantidade que o mercado demandar.
    Fora da linha barra pesada, tem robôs de todos os tipos e para todos os fins. O maior contingente é o robô-mala, que sai muito, quase tanto quanto o robô pé-no-saco e o robô-aporrinhador, digital – vive apontando o dedo. A engenharia robótica conseguiu até criar um robô-papagaio, muito usado por partidos políticos. Repete fielmente as palavras e pensamentos que foram impressos na sua memória.
    O máximo de upgrade que estes conseguiram foi uma vaga lembrança

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  • Os instrutores da vida eterna

    Publicado por: • 18 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    Batata doce é bom. Rainha dos carboidratos, vai direto para a fornalha das células sem adicionar açúcares etc. Esse truísmo é repetido ad nauseam pelos nutricionistas. Então eu e você começamos a comer batata doce como nunca, tanto que o produto está até nas padarias pronto para comer, porque assam pão e batata ao mesmo tempo.
    Até que vem algum instrutor da vida eterna dizer que a melhor batata doce não é a branca, ou amarela, mas a roxa. Quando, enfim, você começa a comer a roxa, vem um instrutor do instrutor da vida eterna e pergunta quanto tempo ela ficou no forno. Você e eu ficamos confusos, sei lá, duas horas de tempo? Errado, você deveria ter deixado só 1h45minutos, caso contrário queima algum fusível orgânico.
    Aí achamos que já é desaforo, então vem a pergunta se essa afirmação tem comprovação científica. Aí vem o nariz empinado especialista em batatas aleatórias.
    – Mas é claro! Um estudo feito pela Universidade do Azerbaijão comprova. Nunca é UFRGS, PUC, sempre é em algum lugar longínquo e universidade que ninguém ouviu falar. Como no tempo da implodida URSS, cujas façanhas científicas e médicas sempre foram feitos a anos-luz da aldeia mais próxima.
    Minha vingança será maligna. Vou espalhar que 100 gramas diárias de alpiste é ótimo para levantar peito caído. Tem comprovação, pode perguntar uma eventual vítima?
    – Mas é claro! Foi um estudo feito por pesquisadores ligados a um instituo russo em Murmansk, norte do Círculo Polar Ártico. Mas já vou avisando, a comunicação é difícil. Nem internet eles têm. Mas juro que é verdade.
    Miss Fallen Breasts saí correndo e avisa o seu cabeleireiro, que passa para o resto do universo feminino que alpiste levanta peito. As lojas de rações para aves veem suas vendas quadruplicarem, o programa Encontro da Fátima Bernardes na Globo entrevista conta com especialistas em alpiste – o que dá mais efeito é o colhido entre as três e quatro horas da madrugada. Aí quando você entra no Google para pesquisar silicone, digamos, aparecem trocentos links falando do alpiste e sua caixa entope de propaganda de lojas que vendem alpiste. Tudo desencadeado por uma inocente batata doce.
    Assim caminha a humanidade.

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