O pulador de muros

29 jun • A Vida como ela foiNenhum comentário em O pulador de muros

IMagem antiga do colégio São Jacó onde o Fernando Albrecht cometeu um pecado

 Onde hoje está a Universidade Feevale, no bairro Hamburgo Velho de Novo Hamburgo (RS), abrigou o Colégio São Jacó. Chamava-se colégio porque tinha o segundo grau completo, na época, os cursos Científico e Clássico, este último, voltado às Ciências Humanas. Por isso, era muito procurado por alunos de cidades do Interior que não ofereciam esses cursos. Os Irmãos Maristas mantinham nele um internato, referência a partir dos anos 1940. Era muito caro, como meu pai sempre repetia, “e vê se estuda direito”.

 Estudei lá como interno em 1959, e bem antes de mim, meu irmão mais velho, Werner. Como todo internato, era bastante rigoroso. Vivi bons e maus momentos por lá. Final de semana sim, final de semana não, eu podia ir para casa, em Montenegro. Mas tinha lá suas prodigalidades, que aos olhos de hoje seriam inadmissíveis. Por exemplo, nos finais de semana em que ficava em NH, o almoço dos domingos era acompanhado de uma cerveja para cada dois alunos. E nós tínhamos 15/16 anos.

 Podia-se fumar também, menos na sala de aula, no refeitório e no dormitório. As saídas nos finais de semana dependiam da autorização dos pais, então, para quem ficava naquela prisão, restava uma escapada ao centro da cidade nos domingos de tarde. Era matiné no cinema Lumiére, e, dependendo da grana, cerveja no bar ao lado ou uma estranha mistura criada por um colega carioca: vermute doce, conhaque e uma pitada de sal, o que o diferenciava do tradicional rabo de galo.

 Devo confessar um grande pecado pelo qual responderei no Juízo Final. Mas tenho atenuantes. No outro lado da rua do São Jacó, ficavam os fundos de um colégio feminino, o Santa Inês, se a memória não falha. Várias vezes, aproveitei a pouca vigilância das noites de sábado e, com alguns colegas, pulava o muro para namorar as gurias do Colégio Santa Inês, que nos abanavam das janelas do também internato.

 O pecado? Vocês acham que eu pulava dois muros altos para bater na janela do quarto de algumas gurias pecaminosas para trocar beijinhos inocentes? Foi meu harém durante duas ou três madrugadas. Pequeno, mas ainda assim um harém. Mas era muito, muito arriscado.

 Os troncos dos eucaliptos do terreno foram meus cúmplices, meu esteio e meu amparo, se é que vocês me entendem. Naquele tempo eu já abraçava árvores.

Foto: Acervo Felipe Kuhn Braun 

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