Minha querida verdinha

26 set • A Vida como ela foiNenhum comentário em Minha querida verdinha

 Nos velhos tempos, a bicicleta era comum no interior gaúcho, mesmo quando a estrada era ruim. Eu ganhei a minha, uma linda, cor verde limão claro, quando completei sete ou oito anoso, ainda em São Vendelino e, depois, em Montenegro. Ela me acompanhou até os 15 anos. Era minha companheira inseparável, eu pedalava com gosto e vento na cara a qualquer hora do dia ou da noite. Por vezes, até escapulia de madrugada para pedalar. Atravessava o arroio Forromeco, água batendo no eixo das rodas, ia ao Grupo Escolar distante 11 quilômetros de casa e, estrada de chão batido, mesmo com a chuva açoitando meu cangote.

 Embrenhava-me com ela no abundante mato na época, parava para colher a fruta quaresma, pitangas e cerejas. A glória era achar um pé de romã com as frutas estourando de maduras. Na falta das da estação, comíamos folhas e o caule de funcho. Bom para curar dor de barriga, claro, você não lembra que a mamã te dava chá de funcho? Não? Que pena, perdeu uma cura barata e instantaneamente.

 Meu Deus, como eu gostava da minha bicicleta! Conversava quando estava triste e também dividia minhas alegrias com ela. Quando furava um pneu, eu a consolava falando baixinho. A minha bicicletinha tinha alma. As grandonas, do meu irmão e primos, nas quais aprendi a pedalar enfiando um pé entre a barra e a corrente, em ângulo de quase uns 25 graus porque não alcançava os pedais se sentasse no selim, não transmitiam a mesma emoção. Apesar do perigo. Muito tombo levei. Que fim teve a minha querida verdinha cor de limão é coisa que me assombra até hoje. Dói pensar que ela pode estar jogada num canto ou, pior, tenha sido derretida como ferro velho.

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