A cerveja do Cacique

18 jan • A Vida como ela foiNenhum comentário em  A cerveja do Cacique

Devagar, não é um índio, é o Cine Teatro Cacique, que ficava na Rua da Praia perto da Caldas Junior, hoje um Zaffari. Nos gloriosos anos 1960, início dos 1970, ele só passava filmes bala, tinha capacidade para duas mil pessoas. Era tempo em que ir ao cinema era quase obrigatório. Havia sessão das 22h, ir para casa depois da meia-noite sem problemas.

Nas laterais do enorme pé direito havia pinturas do bageense Glauco Rodrigues retratando um índio Charrua de alto a baixo, ligação com a empresa dona do Cacique, Taba Cine Teatro. Na inauguração, em 1958, houve show com uma cantora peruana chamada Yma Sumac, conhecida mundialmente pelo extraordinário alcance da voz, de baixo barítono a soprano. No auge, alcançava cinco oitavas. Foi contratada a peso de ouro e o evento foi rgistrado em placa de bronze incrustada na lateral direita.
A cerveja do bar do Cacique? Na época, o copo padrão para a cidade era o boca larga de alto a baixo de 300ml, o que fazia o colarinho desaparecer tão rapidamente que inventaram o chope em copos que afunilavam no pé com apenas 210 ml, os espertinhos. Igual, o colarinho também não durava.
O bar do Cacique não servia chope, só cerveja nestes copos mais finos. A diferença era a durabilidade do colarinho, o chapéu dessa bebida, durava muito mais que em outros estabelecimentos, o que era um mistério. Observei que no fundo sempre havia um pouco de água, duas ou três gotas. E era de propósito. Quase torturei o barman para saber dele qual era a moral.
Simples. A gordura dos lábios vai dissolvendo a espuma e as gotas era água e açúcar, que retarda o efeito e até cria mais espuma. Funcionava mais com as mulheres, porque na época os batons eram gordurosos. É para ver como naqueles tempos a vida era mais calma, a ponto de se jogar tempo fora com questões minúsculas como essa.
O fantasma do índio Charrua deve perambular  durante as madrugadas silenciosas e perigosas daquela parte da Rua da Praia. Talvez acompanhado de Glauco Rodrigues.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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