• O Carnaval das tribos

    Publicado por: • 24 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…tribo brasileira, mas com nome de índio norte-americano”

    Interessante. O governo vai distribuir milhões de camisinhas durante o carnaval na suposição que a turma transa mais durante este período. Há controvérsias. Metade do tempo o grosso da população está pulando e na outra metade está de ressaca. Nos entrementes, pode até ser, desde que não estejam podres de bêbados ou cheirados. Carnaval bom era o de antigamente. Especialmente para rir. Nos anos 70, o desfile em Porto Alegre era na avenida João Pessoa. Na terça-feira gorda, desfilavam os campeões de cada categoria – escolas de samba, blocos, tribos. Ah, as tribos! O palanque era armado do outro lado da Redenção, quando Guilherme Villela era prefeito. Tribo era um sarro. Teve um ano em que Os Comanches tinham como tema “Ascensão e Queda do Império Inca”. Tribo brasileira ter nome de índio norte-americano. E parte da letra da música era falado em tupi-guarani. Para completar, o cacique se apresentava de terno e gravata. Um legítimo samba de índio doido. Num destes desfiles, 1977 ou 1978, era apresentador oficial o jornalista Airton “Camelo” Fagundes. Quando a tribo vencedora passou no palanque oficial, o cacique deu um pulo, empurrou Airton para o lado e fez sua saudação, fora do protocolo. Cheio de mé, falou naquele stacatto estereotipado pelos filmes e programas de humor. – Grande-Cacique-agradece-homem branco-honraria-recebida! Mais não disse porque quase desabou lá de cima

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  • Aqui se faz, aqui se paga

    Publicado por: • 23 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…colocou a quantia certa mas errou o valor por extenso”

    O velho Eugênio era daqueles que perdia o amigo mas não perdia a piada. A bem da verdade, era um velhote arruaceiro. Quando se apertava de grana, vendia cortes de tecidos que conseguia em consignação de uma conhecida loja de tecidos. Certa noite, entrou numa roda de amigos do Restaurante Dona Maria e ofereceu seu produto para um jornalista um pano chamado pele de camelo. Que conhecia bem o dono da loja. – É importado, coisa muito fina. Resolveu comprar. Começou a preencher o cheque quando viu um sorriso debochado no outro. Desconfiou. Aí tem coisa, pensou. E como era daqueles que botava suspensório em cobra correndo e sentia a maldade de longe, colocou a quantia certa em números mas errou propositalmente o valor por extenso. – Não esquece de botar teu telefone no verso, porque tu é daqueles que passa cheque sem fundo. Aí já era desaforo. Colocou um número nas costas. O Eugênio olhou ligeiramente o documento. Já na porta, gritou lá de longe. – Que importado que nada! Só tu pra comprar uma peça dessas sem conhecer tecido. É produto nacional mesmo! Todos riram do otário. No outro dia, o velhote entrou brabíssimo no Dona Maria à procura do comprador, que convenientemente não estava presente. Se estivesse, cena de sangue na avenida São João. Aconteceu que o velhote não conseguiu descontar o cheque no caixa, porque mal preenchido. Fulo da vida, ligou para o telefone constante no verso e tão logo alguém atendeu já foi enchendo o cara de osso. Era de filha da puta para cima. Só que o número do telefone era do seu Rafael. Que vinha a ser o dono da loja que havia entregue o corte em consignação

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  • O leitão quadrado

    Publicado por: • 22 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…nem carne de porco encontro mais, imagina!”

    Nestes tempos sombrios de instabilidade financeira mundial vale lembrar tempo do Plano Cruzado, em 1986. Começou “bem”, com o então presidente José Sarney congelando os preços, com ameaça de cana para quem aumentasse. Não demorou e aconteceu o óbvio: os produtos sumiram das prateleiras, começando pela cerveja. Foi um desabastecimento geral. Carne, conservas, bebidas, tudo. Nesse clima de “tão alegres que viemos, tão tristes que voltamos” o mercado negro entrou de sola. Na rua Santo Antônio, havia uma quitanda e minimercado do seu Wilson. A vizinhança comprava leite, pão, bebidas, frutas e verduras, essas coisas. Que haviam sumido. Num domingo de manhã, chegou lá um sujeito com uma mala pequena, daquelas de papelão, bem simples. Pediu um underberg com cana – cachaça sempre tinha, claro – e acompanhou os relatos tristes da turma que lamentava os efeitos do Cruzado. – Nem carne de porco, encontro mais, imagina – disse um. Aí o sujeito tomou mais um gole do under e entrou triunfalmente no papo. – Bueno, um porquinho eu arrumo. Leitão de primeira. Abriu a mala. Dentro havia um leitão já temperado. Pelo aspecto, o finado suíno já havia passado desta para uma melhor há um bocado de tempo. Ninguém aceitou comprar o bicho. Porque ele estava quadrado, literalmente. Durinho da Silva. De tanto carregar o leitão na mala, havia adquirido o seu formato. Na dúvida, ninguém queria arriscar, para desgosto do proprietário. O vendedor ainda veio com o argumento que os japoneses já vendiam melancia quadrada, então por que não leitão quadrado? Não colou

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  • O mistério do gargalo

    Publicado por: • 21 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…uma daquelas facas tipo Rambo”

    Na segunda metade dos anos 70, existia na rua Cristóvão Colombo, perto da Ramiro Barcelos, um bar misturado com boate, o Sans Chiquè. No inverno, aos sábados, a casa oferecia uma feijoada, com os acompanhamentos de praxe mais as mulheres da casa. Desnecessário dizer que nunca tanta gente comeu feijoada, mesmo com risco de uma posterior congestão. Uma turma do Bar Pelotense combinou ir em bloco num sábado. O primeiro que lá chegou não encontrou ninguém e foi direto para o bar buscar contato com o resto da turma. Pegou o telefone e ligou para o primeiro. Do lado, um gambá equilibrava-se perigosamente no tamborete. Meio-dia e o cara já estava de porre. Atrás do balcão estava a gerente, a Verinha Biônica, porque era estrábica. No reservado da sobreloja, o dono do lugar estava com Chico Anísio – a dupla dedicava-se à compra e venda de cavalos. Lá pelas tantas, desceu um esbaforido garçom para dizer que Chico Anísio queria, pra ontem, um uísque canadense. O freguês ao telefone olhou a prateleira das bebidas e disse para Verinha que não tinha uísque canadense, o mais perto disso era um Cutty Sark. O garçom não teve dúvidas. – Vai esse mesmo. A garrafa baixou. O nervoso garçom não conseguia abrir o lacre. Não teve jeito. Verinha, o gambá e o freguês ao telefone observavam a cena. – Usa uma faca – aconselhou o gambá, num ângulo de 45 graus. A gerente tirou da gaveta uma daquelas facas tipo Rambo. O garçom calçou a garrafa com uma mão e com a faca tentou tirar a cápsula. Má idéia. Para surpresa de todos, saiu não só o lacre como todo o gargalo da garrafa a partir da base. O vidro estava coladinho da Silva. Eram tempos de uísque caríssimo, amplamente falsificado de tudo quanto era jeito. Aí o bêbado não agüentou: – Como tiraram eu já vi. Eu queria saber como é que botaram.

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  • O golpe do Marcus

    Publicado por: • 18 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…fruto de uma incursão paraguaia, só tinha guaranis.”

    Em épocas passadas, o Brasil foi campeão em troca de moeda. Trocamos de moeda como quem trocava de cueca. Cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, real, uma babilônia que não resultou em maiores comoções populares. Numa dessas mudanças, nos anos 80, o Marcus foi comprar uma erva da boa de uma traficante famosa da época, a Nega, que tinha um entreposto de cannabis na Vila Bom Jesus, Zona Leste de Porto Alegre. Boca braba. Marcos estava duro, duríssimo. Fruto de uma breve incursão paraguaia, só tinha cédulas de guaranis paraguaios. Um monte deles mal pagava uma cerveja. Foi à boca, comprou a erva e mostrou as notas para a Nega. – Que dinheiro é esse que eu não conheço? Marcus até pensou em dizer que era alguma moeda européia, mas o portfólio de clientes da empreendedora era vasto e convinha não arriscar. – É o dinheiro novo que vai sair, o cruzeiro supernovo. Desconfiada, analfabeta e desconfiada porque analfabeta, Nega cheirou as cédulas e arriscou. Marcus saiu de fininho com as trouxinhas de maconha. Dias depois, ficou sabendo que Nega despachara-se um “procura-se vivo ou morto” na Vila Bom Jesus e arredores. Riram da sua cara quando ela tentou passar o cruzeiro supernovo adiante.

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