• O mistério do gargalo

    Publicado por: • 21 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…uma daquelas facas tipo Rambo”

    Na segunda metade dos anos 70, existia na rua Cristóvão Colombo, perto da Ramiro Barcelos, um bar misturado com boate, o Sans Chiquè. No inverno, aos sábados, a casa oferecia uma feijoada, com os acompanhamentos de praxe mais as mulheres da casa. Desnecessário dizer que nunca tanta gente comeu feijoada, mesmo com risco de uma posterior congestão. Uma turma do Bar Pelotense combinou ir em bloco num sábado. O primeiro que lá chegou não encontrou ninguém e foi direto para o bar buscar contato com o resto da turma. Pegou o telefone e ligou para o primeiro. Do lado, um gambá equilibrava-se perigosamente no tamborete. Meio-dia e o cara já estava de porre. Atrás do balcão estava a gerente, a Verinha Biônica, porque era estrábica. No reservado da sobreloja, o dono do lugar estava com Chico Anísio – a dupla dedicava-se à compra e venda de cavalos. Lá pelas tantas, desceu um esbaforido garçom para dizer que Chico Anísio queria, pra ontem, um uísque canadense. O freguês ao telefone olhou a prateleira das bebidas e disse para Verinha que não tinha uísque canadense, o mais perto disso era um Cutty Sark. O garçom não teve dúvidas. – Vai esse mesmo. A garrafa baixou. O nervoso garçom não conseguia abrir o lacre. Não teve jeito. Verinha, o gambá e o freguês ao telefone observavam a cena. – Usa uma faca – aconselhou o gambá, num ângulo de 45 graus. A gerente tirou da gaveta uma daquelas facas tipo Rambo. O garçom calçou a garrafa com uma mão e com a faca tentou tirar a cápsula. Má idéia. Para surpresa de todos, saiu não só o lacre como todo o gargalo da garrafa a partir da base. O vidro estava coladinho da Silva. Eram tempos de uísque caríssimo, amplamente falsificado de tudo quanto era jeito. Aí o bêbado não agüentou: – Como tiraram eu já vi. Eu queria saber como é que botaram.

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  • O golpe do Marcus

    Publicado por: • 18 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…fruto de uma incursão paraguaia, só tinha guaranis.”

    Em épocas passadas, o Brasil foi campeão em troca de moeda. Trocamos de moeda como quem trocava de cueca. Cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, real, uma babilônia que não resultou em maiores comoções populares. Numa dessas mudanças, nos anos 80, o Marcus foi comprar uma erva da boa de uma traficante famosa da época, a Nega, que tinha um entreposto de cannabis na Vila Bom Jesus, Zona Leste de Porto Alegre. Boca braba. Marcos estava duro, duríssimo. Fruto de uma breve incursão paraguaia, só tinha cédulas de guaranis paraguaios. Um monte deles mal pagava uma cerveja. Foi à boca, comprou a erva e mostrou as notas para a Nega. – Que dinheiro é esse que eu não conheço? Marcus até pensou em dizer que era alguma moeda européia, mas o portfólio de clientes da empreendedora era vasto e convinha não arriscar. – É o dinheiro novo que vai sair, o cruzeiro supernovo. Desconfiada, analfabeta e desconfiada porque analfabeta, Nega cheirou as cédulas e arriscou. Marcus saiu de fininho com as trouxinhas de maconha. Dias depois, ficou sabendo que Nega despachara-se um “procura-se vivo ou morto” na Vila Bom Jesus e arredores. Riram da sua cara quando ela tentou passar o cruzeiro supernovo adiante.

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  • Curto e grosso

    Publicado por: • 17 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “..fazia textos quilométricos, que custavam os tubos”

    Durante o governo Ildo Meneghetti, nos anos 60, um secretário de Estado percorria o estado para reportar situações que exigiam a intervenção do Palácio Piratini. Com poucos telefones – demorava-se horas para conseguir uma simples ligação, quando vinha – restava só o telegrama. Que era caro pra caramba. E o secretário, chamado Caio, fazia textos quilométricos, que custavam os tubos. Meneghetti mandava Caio reduzir mais e mais os textos, irritando seu auxiliar. Foi reduzindo, reduzindo, e nada do velho Ildo se dar por satisfeito. Mandava Caio abreviar mais ainda o texto. Certo dia, ele foi a Montenegro, onde uma grande enchente do rio Caí ameaçava o cais. Caio foi lá e chutou o pau da barraca mandando um texto literalmente telegráfico: “Cais Caí caiu. Caio”.

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  • Os perigos da verdade

    Publicado por: • 16 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…você sabe em que andar fica meu apartamento?”

    Leonel Brizola sempre teve a cercá-lo um ou mais grupos de fiéis militantes. Brizola, como se sabe, é religião. Era, e ainda é. Muitos obviamente não passavam de puxa-sacos, esmerados e burilados na arte de. Havia um, gaúcho, que vivia no apartamento de Brizola na avenida Atlântida, no Rio de Janeiro. O sujeito saia da casinha a toda hora, mas nunca se dava por vencido e pendurava-se no saco do líder. Certo dia, o grupo mais chegado pediu uma reunião mais formal com o líder. Um deles, alertou-o sobre o puxa-saco, que não somava nada e até era perigoso. – Doutor Brizola, o cara é maluco! Pára de recebê-lo. O senhor precisa dizer isso a ele, olho no olho. Leonel de Moura ficou pensativo por alguns instantes. Depois dirigiu-se ao interlocutor. – Você sabe que andar fica o meu apartamento? Sem entender direito, ele respondeu: – Sei, é quarto andar. Por que? – Se eu pedir que ele me largue de mão por ser maluco vai se atirar pela janela. E aí, eu vou ficar com um suicídio na consciência, não vou? A turma ficou quieta e não insistiu. O maluco ficou com Brizola até o fim

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  • O cavalo verde

    Publicado por: • 14 jan • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…o pior, doutor, é que eu também fui ficando verde”

    A propósito do alarmismo em torno da febre amarela: na década de 50, estava de plantão no Hospital Veterinário da Faculdade de Agronomia da Ufrgs o falecido professor José Jardim Freire, um dos maiores nomes da parasitologia brasileira. Ele contava que certo dia alguém ligou para o hospital perguntando se os veterinários poderiam ir ver o que estava acontecendo com seu cavalo. Freire disse que, a princípio não, que eles atendiam animais no próprio hospital, a não ser que fosse uma doença excepcional. O cara então disse que sim, era uma doença fora do normal, que nunca havia visto algo semelhante. – Meu cavalo está ficando verde. Estupefato, Freire pediu maiores detalhes. – É, verde. Começou no lombo. Aquele esverdeado foi ficando cada vez mais forte, depois pegou a cabeça e até a cola. O veterinário se interessou de vez no caso. – Mas como foi acontecer? O senhor deu a ele algum remédio, alguma comida diferente? – Não, tudo normal. Mas o pior, doutor, o pior é que eu também comecei a ficar da mesma cor. Eu estou sempre montado no bicho, e acho que ele passou a praga para mim. Estou todo verde também, juro! Aí a atenção de Freire foi total. Pegou papel e caneta e pediu o endereço, que ele iria em seguida visitá-lo. – Pois não, doutor. Anota aí: meu nome é Marechal Deodoro da Fonseca e o endereço é a parte central da Praça da Alfândega. Durou um segundo para cair a ficha do professor e perceber o trote cavalar do qual foi vítima

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