O Povo da Areia

1 mar • Caso do DiaNenhum comentário em O Povo da Areia

  Neste feriadão, me mandei para o Litoral. Eu e pelo menos um milhão e meio de pessoas. Da sacada do meu humilde tugúrio, vi o Povo da Areia lambuzada de suor, protetor solar, bebida e comida, pela ordem. E não nos esqueçamos do despejo do que o corpo já processou. E todos se lavando no mar. Acho que, por isso, ninguém mais pisa em siri, que deve estar em extinção. As casquinhas de siri de outrora hoje são de cação.

  A velocidade da mudança dos bons para os maus tempos foi estonteante. Nos anos 70 e 80, as famílias procuravam sempre o mesmo lugar para erguer o guarda-sol. No caso de Tramandaí, meu point era 20 metros além do Restaurante Panorama, a metros do eterno Gaivota. O Panorama foi demolido porque erguido em área de marinha – DE e não DA, como dizem. O Gaivota se safou porque nos primórdios a escritura teve o aval do Supremo.

  Na minha zona de conforto, a cerveja e os picolés para as crianças eram fornecidos pelo Simona, um sujeito simpático e prestativo. E nós não pagávamos na hora. Crianças, o Simona passava pela tarde nas casas e apartamentos dos fregueses para cobrar. Nunca deram calote, ele contou.

   Há um outro símbolo antigo de conforto que me acalma. Mesmo na madrugada, vê-se luz nas duas janelas do sótão do Bar Gaivota, imagino que da família do dono. Enquanto essas luzes estiverem acesas, eu terei saudades dos tempos em que veranear em Tramandaí era delicioso. Se um dia se apagarem, eu morrerei mais um pouco.

 

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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