A morada do Diabo

19 fev • NotasNenhum comentário em A morada do Diabo

É nos detalhes que mora o Diabo, é nos detalhes que Deus está ausente. No caso do Brasil, Ele nunca foi brasileiro.

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Maldade Dele? Não, falta de capricho nosso. Veja-se o caso da fuga de presos no presídio de segurança máxima do Rio Grande do Norte. Um alicate, um simples alicate esquecido na reforma da casa prisional possibilitou que dois apenados cavoucassem um buraco na parede da cela.

Foi só isso? Nãããão, tem mais.

Os gorilas de Ruanda

Alguém aí já viu um presídio de segurança máxima sem muros e sem guaritas de vigilância? Porque não me orgulho da engenharia de presídios do meu país.

Claro que, depois da porta arrombada, vem a tranca de ferro, como diz o provérbio. Como o governo pagou um mico do tamanho de um gorila da Ruanda, agora corre atrás do prejuízo.

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Por governo entenda-se o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que assumiu não faz muito prometendo cuidar da segurança pública. Cuidar para que ninguém fuja dos presídios já será um bom começo.

Como se muda de planeta?

Por onde se olha tem coisa errada. Para ser franco, é difícil encontrar uma coisa certa no Brasil, estendendo as ilhas de excelência, maioria da iniciativa privada.

Vejamos outro exemplo, a BR-290, rodovia que liga Porto Alegre à fronteira Uruguaiana, que está um buraco só na parte que não foi concedida. Como diz um familiar meu que a conhece, dá vontade de fugir para outro planeta.

E eu lembro, ah como eu lembro, quando ela foi asfaltada em tempo recorde a partir do final dos anos 1960.

Alegrete baita chão

Em março de 1970, fui a Uruguaiana com um grupo de amigos. Teoricamente para curtir o famoso carnaval da cidade.

A construtora trabalhava dia e noite. E assim foi mesmo durante o carnaval. Quando fomos, o asfalto terminava dois quilômetros antes da cidade. Na volta, três dias depois, já tinha passado da entrada da cidade.

Ano após ano, eu viajei para lá sempre maravilhado com o asfalto, sinalização horizontal e vertical impecáveis. Usava-se muito o vidro refletivo nas laterais, chamado olho-de-gato.

A tinta que separava as pistas era reflexiva, novidade naquele tempo. As placas indicando a quilometragem foram colocadas a cada dois quilômetros, num sentido, e a cada dois quilômetros no outro. Um em número ímpar e outro, número par.

O que perdemos

Quer dizer que já fomos mais caprichosos no passado. Mesmo assim, aos poucos, fomos perdendo esse capricho. Vide as ruas e avenidas das cidades, exceções à parte, cheias de buracos e imperfeições de sinalização.

Passa para o Uruguai, em Santana do Livramento, ou para a Argentina, nas cidades de fronteira, e o asfalto é liso e sem buracos.

Quem tudo quer tudo perde

No final dos anos 1950, o então governo Juscelino Kubitschek optou pelo rodoviariasmo. No que foi seguido pelos governantes que o sucederam, o que vale até o atual.

Nas décadas seguintes, as ferrovias foram sucateadas, carga e passageiros, e as rodovias não disseram a que vieram. Começou ali o nosso desastre. Um país que opta pelo caminhão e não constrói rodovias.

Vê se pode uma coisa dessas. E nem hidrovias em número decente temos.

Lá e cá

Tenho uma inveja danada dos países europeus. Em todos eles, o trem de passageiros é prioridade. Na Alemanha, os modais ferroviário, rodoviário e hidroviário respondem por um terço do total.

A Suíça, que é quase só montanhas, está cheia de trens. Ah bom!, foste logo pegar a Suíça, você há de dizer.

Pois é. De desculpa em desculpa, somos um país que nunca chegou, e dificilmente chegará, lá.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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