Uma camisa por testemunha

5 set • A Vida como ela foiNenhum comentário em Uma camisa por testemunha

Pouco antes do fecha da edição do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o chefe da reportagem policial Wanderley Soares recebe a visita de conhecido de longa data, uma figura que escrevia com alguma regularidade para o Correio do Povo, da velha Caldas Jr, sob comando de Breno Caldas. Ele era meio, digamos, excêntrico. O Wandeco, falecido em março deste ano, observou que a visita estava com a camisa rasgada e ensanguentada, então viu, de cara, que a bronca era severa.

– Mas o que houve contigo?

– Pois é, meu caro Wanderley, estou vindo a  ti porque o jornal no qual escrevo não quis abrigar a minha triste história.

O Wanderley ficou muito interessado. O ensaguentado prosseguiu a narrativa.

– Pois veja só. Estava eu caminhando no Centro quando me deparei com dois marmanjos, acho que camelôs, dedicando-se ao desforço físico. No popular, brigavam a socos. Como sou da paz, tentei apartar a briga.

– E?…

– Veja só como esse mundo é cruel. Em vez de me agradecer, os dois passaram a me agredir gritando que eu não tinha nada que me meter em briga alheia. Levei um soco no nariz, e, durante a refrega, rasgaram minha camisa, já encharcada de sangue, como se vê. Nisso, chegam dois PMs para ver o que estava acontecendo.

– Apartaram a briga, né?

O articulista suspirou.

– Não.Os brigões mentiram, disseram aos brigadianos que eu é que tinha começado a bronca, e o fizeram com tal veemência e convicção que os policiais acreditaram.

– Não!

– Sim. E ainda apanhei deles.

– Ah não, isso é uma barbaridade – falou o Wanderley, que pegou a Bic e laudas de papel. – Que horas foi e em que rua do Centro?

–  Na Salgado, às 21h. Mas devo esclarecer que não foi hoje?

– Como assim, não foi hoje?

– Foi há dois meses.

– Então…então…mas por que diabos você está com a camisa rasgada e ensanguentada?

Um sorriso triste veio flutuando.

– É que…bem, é que…sabe, eu guardei a camisa e a vesti para ilustrar a violência que me fizeram.

O Wandeco ficou uns bons 30 segundos olhando fixamente para o visitante, esferográfica imóvel apontada para uma lauda que nunca registraria o estranho caso que acabara de ouvir.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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