As aventuras do Capitão Atlas

1 out • A Vida como ela foi1 comentário em As aventuras do Capitão Atlas

Muito antes do Capitão que está no governo, tivemos outros às mancheias, como o Capitães da Areia, do Jorge Amado, e tantos outros. O meu preferido era o Capitão Atlas. Tinha eu lá meus 8 ou 9 anos, final da década de 1940, e ele dava o ar da graça antes da Hora do Brasil, um seriado policial na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro AM. E só se pegava em rádio com ondas curtas. Já ouviu falar? Não? Pena. Atlas e alguns comandados lutava contra o crime e a injustiça e tinha na gurizada uma fanática torcida.

Minutos antes do programa começar eu e meu irmão Paulo Cristiano ligávamos o rádio alemão marca Mende para aquecer a válvula e, depois de longa e laboriosa luta, sintonizar o programa. Tenho na memória cheiros, ruídos e sons como se fosse ontem.

O aparelho ficava na cozinha, e a sintonia fugia a toda hora. Especialmente quando em momentos críticos da radionovela. Acho que o avô do Murphy já aprontava naquela época. O desespero meu e do Paulo para voltar à sintonia era algo. Já naquele tempo a mãe do Mende era invocada a toda hora, mas não de forma elogiosa.

O fogão a lenha localizava-se a dois metros – se tanto – da banqueta onde estava o rádio. A energia elétrica gerada pelo moinho colonial de São Vendelino era desligada às 22h. O cheiro que está nas minhas papilas olfativas até hoje é uma mistura de chá preparado por minha mãe – o café era caro e ruim como carne de cobra – e um pão sem fermento cozido no vapor e embebido em creme de baunilha, chamado tampf (fumaça, vapor) nudle (massa).  Nunca mais comi.

O cheiro de terra e mato invadia a casa ao anoitecer. A lenha crepitando no fogão mais o chiado da chaleira misturado com o som de vai-e-vem do rádio e a interferência eram a minha Quinta Sinfonia, por assim dizer, com a devida licença de Ludwig Van.

A cereja sonora desse vagalhão de saudosas lembranças era o cri-cri de um grilo solitário à procura de uma namorada.

One Response to As aventuras do Capitão Atlas

  1. paulo roberto de lucca disse:

    Privilegio ler este texto,rico em detalhes,Parabens !

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