Zero a zero, bola ao centro

22 set • A Vida como ela foiNenhum comentário em Zero a zero, bola ao centro

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– Eu roubei muitos livros de um livreiro que estava mal das pernas quando era garoto – falou o cara sentado junto ao balcão do bar. Mas estou em paz com minha consciência.

O plateia que beberica cerveja ficou em silêncio, quebrado pouco depois por alguém sentado em uma mesa próxima.

– Eu fiz coisa muito pior. Quando ajudava meu tio no armazém, tirei dinheiro do caixa várias vezes. Também não tenho remorsos. Nada grande, é verdade, mas sabem como é, de grão em grão…

Por algum tempo só se ouviu o ruído do compressor do refrigerador.

– Já que vocês estão abrindo o jogo – falou um terceiro freguês – eu também fiz coisa ruim no passado. Hoje, estou em paz com meu eu interior, mas assaltei uma velhinha e tirei toda a aposentadoria dela. Pior é que a machuquei feio, ela gritava de dor.

Essa de “meu eu interior” era novidade no bar. Alguém entrou na toalete e saiu algum tempo depois. E falou.

– Para dizer a verdade, eu também fiz coisa da pesada. Quis dar um susto no vizinho que implicava com meu cachorro e botei fogo no chalé dele. Queimou tudo, móveis, eletrodomésticos, não sobrou nada. Dormi mal por algumas noites, mas depois fiquei de bem comigo mesmo.

Lá no fundo do bar um freguês novo pegou a palavra.

– Caras, eu não entendo mais nada. Eu era piá de colégio e colei a prova de matemática. O professor desconfiou e me perguntou se eu não havia colado, eu disse que não. E por isso estou se dormir até hoje. Como vocês podem estar em paz com as atrocidades que fizeram?

Falou o que espancou a velhinha.

– Ué! Todos nós nos confessamos ao padre e nos arrependemos dos nossos pecados. Custou 20 ave-maria.

– E eu tive que rezar o rosário durante uma semana – explicou o que botou fogo na casa. E o padre me deu um sermão daqueles, mas depois me absolveu. Então qual a surpresa? Você não é católico?

– Não. Sou luterano. Para a moral calvinista o pecado maior é a mentira. E não temos essa de absolvição e ficar em paz. Mas não temos mesmo.

Fez-se novamente um grande silêncio, quebrado apenas pela buzina insistente de um carro na rua. Desta vez, quem falou foi o dono do bar.

– É por isso que essa cultura católica é ruim. Matou, confessou para o padre, cumpriu a penitência, zero a zero e bola ao centro.

Ninguém mais falou. O único barulho era de mais cervejas sendo abertas.

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