Uma noite de tangos

12 fev • A Vida como ela foiNenhum comentário em Uma noite de tangos

“…todos aproavam a Tia Dulce para tomar aquela sopa de cebola”

O trecho à direita de quem sobe a avenida Independência abrigou casas lendárias de Porto Alegre, a Tia Dulce e uma casa de tangos nos fundos do mesmo prédio, que mudou de nome várias vezes. A Tia era da Dulce e do seu Cassel, um descendente de alemães que lutou na II Guerra Mundial ao lado dos americanos. Certa vez, ele me mostrou a Colt.45 que usou no conflito. O período áureo da Tia foi nos anos 60. Quando os bares e boates da Indepê fechavam, todos aproavam a Tia para tomar a sopa de cebola. Nunca mais alguém fez algo igual – salvo o antigo restaurante da Ceasa de São Paulo.

A casa de tangos, no fundo do prédio, foi de um argentino aquerenciado cujo nome me escapa. Viúvas, desquitadas ou solteironas chegavam aos magotes, suspirando quando ele cantava “Mi Buenos Aires querido”. Os predadores noturnos sempre abatiam alguma vítima carente. O proprietário era um cavalheiro, mas certa noite alguém o tirou do sério.

Certa madrugada um grupo de noctívagos saiu do bar do hotel Plazinha e foi para lá. Com aquele ar sofrido que é obrigatório para um cantor de sentimento triste que se baila, segundo o compositor Enrique Santos Discepolo, o cara encantava cerca de 30 pessoas, a maioria mulheres maduras, naquela idade que um dia um cretino chamou de “a melhor idade”.

A certa altura do show, o cantor jactou-se que conhecia centenas de letras de tangos, sabia de tudo de Le Pera a Discepolo passando por Edmundo Rivero, do Viejo Almacén. E lançou um desafio, que pedissem qualquer música. Foi a deixa para um dos gaiatos.

– Canta aí um tango que não termine com “tcham-tcham!”

Existiam, claro, mas na hora deu branco no cantante. Pensou, pensou, ficou vermelho, vacilou. Quando lembrou era tarde, Inês já era morta.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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