Um chopp e a conta, Mariliz Pereira Jorge

31 mar • ArtigosNenhum comentário em Um chopp e a conta, Mariliz Pereira Jorge

Recebi um artigo muito interessante da jornalista e roteirista Mariliz Pereira Jorge, que apresenta o programa “Sem Mimimi com Mariliz” no You Tube e escreve para a Folha de S.Paulo. Sagaz, a Mariliz.

Um chopp e a conta

A cena se repete com uma frequência enlouquecedora. Eu peço uma taça de vinho ou uma cerveja, meu marido (por causa de duas gastrites) escolhe um mate ou um refrigerante. Outro garçom traz as bebidas até a mesa. Vinho para ele, refrigerante para mim.

Na hora da conta a mesma coisa. Ela sempre aterriza na frente dele, nunca na minha. É sempre assim. Em 100% das vezes. O senso comum é de que o homem bebe, a mulher nem sempre. Muito menos se o homem não beber. Se apenas um dos dois optou pelo álcool, nunca é a mulher. O garçom nem pensa.

Ele vai lá, serve o suco de graviola para a mulher e a cerveja para o homem, porque sempre foi assim e parece continuar assim. Ele vai lá e dá a conta para o homem pagar, porque sempre foi assim.

Sempre foi assim, mas não é mais assim faz muito tempo. E são esse pequenos detalhes no dia a dia que mostram porque é tão difícil que mudanças ainda mais significantes aconteçam de forma sistemática. Se álcool ainda é coisa de homem, imagine o resto.

A internet está cheia de páginas cretinas que vão além do “não mereço mulher rodada”. Tem também “não mereço mulher que fuma”, “não mereço mulher que usa tatuagem”, “não mereço mulher que bebe”.

E o tratamento que recebemos em campanhas publicitárias e nos bares reforça que beber é coisa de homem. Como consumidoras somos apenas coadjuvantes aos olhos de garçons e donos de estabelecimentos. Como consumidoras somos apenas uma bunda dura e um sorriso esbranquiçado aos olhos dos fabricantes de bebida.

Todos querem nosso dinheiro, nosso consumo e nossos 10%. Ninguém parece interessado no que queremos. Custa muito perguntar “de quem é a cerveja”?

Esses profissionais não têm mãe, namorada, mulher, colegas, amigas? Essas mulheres não tomam cerveja no happy hour, vinho no jantar, viram shots de tequila na balada?

O consumo de bebida alcoólica entre as mulheres é o que mais cresceu, segundo dados do Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas). Do último estudo para cá o aumento foi de 34% entre o público feminino. Até os 35 anos, as mulheres bebem cerveja tanto quanto homens acima dessa idade.

Quanto maior a escolaridade, maior o consumo entre as mulheres. O que significa que não apenas estamos bebendo mais, como podemos pagar a conta também. Nunca fez tanto sentido o ditado popular de que “antigamente as mulheres cozinhavam como as mães, hoje bebem como os pais”.

E isso já vem de mais tempo. Meu pai, por exemplo, não bebe. Meia caipirinha já é o suficiente para deixá-lo alegrinho. Minha mãe gosta de uma taça de vinho ou de um choppinho no fim do dia. A confusão do garçom com a bebida acompanha os dois a vida inteira. O que não falta é mulher que vive a mesma saia-justa.

A meu ver, há outro preconceito: o de que o homem sempre bebe. Para o senso comum beber é sinal de virilidade. Basta ver as competições perigosas de quem entorna mais, promovidas por centros acadêmicos. Basta ver a reação das pessoas quando um homem diz que não bebe. Como assim? Está doente? Fez promessa?

E antes que alguém venha dizer que estou fazendo apologia ao álcool, entendam que falo sobre o consumo saudável e recreativo. Mas falo principalmente de uma questão comportamental. Do machismo bobo e distraído por trás dessas atitudes.

O números de mulheres que bebem é cada vez maior. E enquanto nos ignoram, o número cresce ainda mais. E, se continuarem nos ignorando, mudaremos de bar, de restaurante. E pode deixar a conta aqui que eu mesma pago. Sem os 10%.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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