Sem sol como testemunha

1 abr • A Vida como ela foi1 comentário em Sem sol como testemunha

Nunca beba vendo a luz do sol. Um político famoso dos anos 1980 tinha essa máxima e repreendia funcionários, parentes, amigos e até conhecidos quando via alguém bebendo de dia. A bebida, sentenciava Sua Excelência, só pega você se insistir em beber de dia. Espere o anoitecer, exclamava, dedo em riste para o infeliz flagrado tomando seu chopinho ou uísque no almoço.

Ele mesmo se dizia um exemplo. Bebia forte, como se diz na Fronteira Oeste, mas sempre à noite. Durante o dia, o único líquido que descia pela sua garganta era chimarrão ou água mineral. Cumpria esse sagrado preceito desde sempre, jurava, e passava longe da dependência.

Um dia, no meio de uma manhã, um funcionário foi à sua procura na praia – era fevereiro – e cruzou o largo gramado da mansão. No caminho, deparou-se com a Veraneio do político. Bateu na porta que foi atendida pela empregada, explicando que o patrão tinha dado uma saída. Conformado, deu meia volta e, justo quando cruzava a caminhonete, Sua Excelência abriu a porta do veículo de bermudas com uma garrafa vazia do melhor scotch que o dinheiro podia comprar. Trôpego, só fez um aceno e foi reabastecer no bar da mansão.

Mais surpreso que virgem que descobre estar grávida, o funcionário foi embora para não causar constrangimento ao patrão. Foi então que notou que todas as janelas da Veraneio estavam com os vidros cobertos com cortinas pretas.

O homem era coerente. Realmente, ele nunca bebia vendo a luz do sol.

One Response to Sem sol como testemunha

  1. Rogério disse:

    Eu também não bebo vinho quando tá calor. Ligo o split! Rogério Cordella

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