Recuerdo do Luiz Odilon

9 nov • ArtigosNenhum comentário em Recuerdo do Luiz Odilon

Aqui vai mais um recuerdo do alegretense Luiz Odilon, contando como eram as ferrovias gaúchas no passado. Apenas para aduzir um comentário, até meados dos anos 1960 dos anos 1960 o Rio Grande do Sul também tinha uma estatal, a Viação Férrea do RGS (VFRGS), que utilizava nos anos 50 os mundialmente famosos e luxuosos vagões Pullman. Cansei de viajar para Montenegro, uma linha que passava por São Leopoldo, Capela de Santana, MNG e depois se ia pra Caxias. Foi para o espaço  por causa da (a tola) opção pelo rodoviarismo e, sobretudo, porque era estatal. Mas essa já é outra história. Curtam o Luiz Odilon.

  A empresa que explorava as ferrovias do Rio Grande do Sul, Rede Ferroviária Federal (RFFSA), teve muita força econômica, igualmente influência política. Sob sua proteção decolaram vários candidatos a cargos eletivos, dando força e usando o corporativismo interno, mais seus cúmplices e agradecidos votos para se eleger.

  A importância da RFFSA era tão grande, que as radiações de greves na empresa paravam o Estado, e  eram muito frequentes, com pleitos abusivos dos ferroviários, de costas quentes com o respaldo político que seu apoio eleitoral conseguia, uma mão lavando a outra, as duas destruindo a empresa.

  Essas equivocadas ações acabaram sendo um tiro no pé. A organização entrou em agudo processo de autofagia, engolindo a si mesma, transformando-se na famélica criatura da hora da privatização, esvaída de todo poder passado, seja econômico, seja político.

  Na prática, repetiu na vida real a velha fábula da galinha dos ovos de ouro, desvio comum na economia estatizada. A bola da vez é a Petrobras, verdade que nesta o leque de motivos é mais graúdo, abrangente e com corrupção institucionalizada.

 Na década de 50, começou a aparecer, em nível nacional, um destes fenômenos eleitorais que, vez em quando, surgem no meio político, Jânio Quadros. Ele era um populista, extremamente exótico, na fala e aparência, também egocêntrico ao máximo, bom de voto no lugar certo; vereador, prefeito e governador de São Paulo em sequência rápida.

  Para isto usou como escada política a boa atuação por onde passou, tornando-se franco favorito para suceder Juscelino Kubitscheck, com a vassoura como símbolo e o lema: Jânio vem aí.

  Isto tudo mais propaganda maciça em todos os veículos de imprensa, com jingles de muita audiência então, como este que se ouvia toda hora:

            “Varre, varre, varre, varre vassourinha
Varre, varre a bandalheira
O homem está cansado
De sofrer desta maneira
Jânio Quadros é a esperança
Deste povo abandonado”

  Foi verdadeira avalanche eleitoral, pois prometia o paraíso para todo mundo, como bom demagogo não entregou e, pior, conforme todos sabem, renunciou, num ato até hoje discutido. A intenção nunca foi muito clara, não há certeza se o próprio Jânio sabia o que queria, ou foi efeito de “forças ocultas” engarrafadas.

 Para mim, esses episódios acabaram benéficos, naquela primeira e única vez na vida que engajei-me em atividade política, também trabalhei para Fernando Ferrari candidato a vice-presidente. Tendo desilusão tal com os resultados que encerrei por aí a minha militância no setor. Fato bastante positivo, pois ganhei precioso tempo para outros afazeres. Política é para gente do ramo, nada contra, sou mesmo um admirador da atividade, não para incautos amadores como eu.

  Entretanto, essa eleição, apesar da decepção do desenrolar posterior, trouxe-me ganhos financeiros significativos, por ter feito algumas apostas, como costume então, pegando o Jânio e dando a tropa. O valor acordado eram alguns centavos sobre diferença de sufrágios, e esta foi enorme, fora completamente do esperado, mais de milhão e meio de votos sobre o segundo colocado. Ganhei tanto dinheiro, que fiz redução para os contendores amigos, mas deu para passar 15 dias no Rio de Janeiro, passeio pago pelos adversários do Jânio.

  Ele ganhou a eleição oportunisticamente na chapa da UDN, que também o usou, já que, na verdade, afinavam em muito pouco. Dentre os pontos de harmonia, ele queria ser presidente e ela, acima de tudo, visava derrotar o PTB, partido de João Goulart, que acabou ganhando a eleição para vice-presidente, eram  escrutínios separados então. Meu candidato a vice, Fernando Ferrari, com sua Campanha das Mãos Limpas, chegou em terceiro, talvez o lema usado, ontem, como hoje, fosse inadequado.

  Jânio prometia na campanha a mais radical moralização do serviço público, logo no início da gestão as ações foram neste sentido, o que colocou na alça de mira do Governo, aqui no Estado, a RFFSA a qual diziam que iriam pôr, literalmente, nos trilhos. Ainda mais, por causa da estreita ligação com o PTB, do qual eram filiados muitos daqueles políticos que fizeram carreira tendo a viação férrea como ponto de partida para sua carreira.

  Bem nesta época, fins de fevereiro, certo dia fui à estação ferroviária as quatro da tarde, horário do “passageiro”, trem de transporte de viajantes. O dia era muito quente, como é normal nesta época do ano, para surpresa minha o estacionário trajava, além do uniforme com quepe, um sobretudo de lã e suava bastante. Vendo aquilo e achando muito estranha a sua  indumentária, sendo ele meu amigo, indaguei-lhe:

 – Mas tchê, tu não está com calor?

– Mas bah, respondeu, estou pegando fogo. Mas os homens, início governo Jânio, estão dando um duro danado, olha só a ordem de serviço que recebi.

  Passou-me um papel timbrado da empresa, o qual trazia drástica ordem de serviço, determinando entre muitas outras coisas que:

  “Os funcionários da RFFSA devem usar uniforme completo, sobretudo na hora do trem de passageiros”. 

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