• Os anos de vacas gordas

    Publicado por: • 1 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    Em comparação com décadas passadas, especialmente os anos 1970, os tempos de hoje são como comparar sem-teto com um diretor de banco. Certa vez, eu e o jornalista Jefferson Barros falamos sobre isso na Cafeteria Chaves, na galeria de mesmo nome. Jefferson foi uma das poucas pessoas que mereciam o título de intelectual de verdade.

    Pois o Jefferson, que estava desempregado apesar do brilho, tinha sido produtor do Globo Repórter até que tudo começou a dar errado. Mala suerte. Pois ele contou como era gratificante trabalhar na Globo. Se acontecesse alguma bronca importante no outro lado do mundo, em horas o repórter tinha dólares, passagem de avião e visto pronto para cobrir o fato.

    Enquanto ele falava lembrei dos tempos da Folha da Manhã. Eu era pauteiro. Auge do escoamento da safra da soja, e uma ponte na BR 116 deu os doces. Como foi interditada formou-se a fila de caminhões que ia para o porto de Rio Grande, atingindo 20 quilômetros.

    Pedi para ver a bronca de perto. E do alto. A Caldas Júnior, do doutor Breno Caldas, fretou um táxi aéreo bimotor para eu olhar o panorama visto acima da ponte.

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  • Diário da peste

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    Publicado por: • 1 abr • Publicado em: Caso do Dia, Notas

    ÀS VEZES, acho que o ministro da Saúde, Mandetta, tinha razão ao recomendar que não se veja televisão. Me digam o que a TV está informando além dos números da pandemia? Ouvem especialistas que têm opiniões coincidentes ou ainda repetem – com ar professoral – que as pessoas precisam se proteger. Como se isso fosse a invenção da roda.

    Imagem: Freepik

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    DIZEM alguns leitores que estou pegando pesado com o que nós  chamamos de mídia. Não boto todos os colegas no mesmo saco. Mas é claro, claríssimo, que tem muita gente despreparada emitindo opinião. Pior, tem fé pública. O povo vai atrás como cão vai atrás do osso.

    REPITO o que venho dizendo antes do vírus aparecer: se todas as instituições estão em  rua E, por que o jornalismo seria uma exceção? Mas tem outra mosca na sopa

     Com a  queda acentuada das receitas publicitárias, tiveram que cortar salários mais altos, justamente o que os mereciam pelo fato de que eram bons no que faziam. Aí entraram os estagiários com tesão mas sem conteúdo e sem base de comparação. Não se bota piloto recém brevetado no assento direito de um Boeing 747 sem que ele tenha um bocado de horas de voo, e isso leva anos.

    TEM mais. Com a  redução de gente nas redações, se cobre menos fatos que já eram maiores em número que repórteres mesmo nos bons tempos. Muita notícia para pouco jornalista. Agora então, nao rem gente nem para cobrir eventos além de duas quadras. Até o uso de viaturas está racionadi.Em resumo, estamos com déficit de notícias.

    PARA que não se diga que só vejo o lado ruim, devo cumprimentar os colegas que fazem o que podem e até se superam. Estes são os bons de verdade, lutando até com falta de equipamentos básicos.

    ESCREVI estas notas para página 3 do Jornal do Comércio, Começo de Conversa. Achei pertinente  reproduzi-las aqui. Eu,  que não sou o Joāo das notas me sinto assim, imagina ele.

    Atribulações de um João Ninguém  I

    Jogado de um lado para outro com a multiplicação de informações contraditórias, mais a guerra civil entre os poderes, chacoalhado como uma rolha na correnteza, o atribulado João Ninguém tenta se equilibrar na corredeira da cizânia com pororoca de vídeos terroristas falsos.

    Atribulações de um João Ninguém II

    Entre a extrema confusão e oscilando entre o pânico e depressão, o joguete tenta cumprir alguns compromissos inadiáveis. Qual o quê. Mesmo estando às moscas, os bancos demoram a resolver casos simples, isso se conseguir convencer o atendente. Tudo é tão difícil, tudo é tão confuso…

    Atribulações de um João Ninguém III

    Vai nas farmácias e outros lugares onde se aplicam vacina contra a gripe e só ouve uma palavra: terminou. Se quer comprar um lanche tem que fazer uma varredura para ver o que está aberto.

    Atribulações de um João Ninguém IV

    Volta triste para casa, sem eira nem beira, acreditando e desacreditando de tudo que vê e lê. E se for idoso, ainda tem que aguentar olhares de repulsa e alarme como se fosse a Grande Ceifadeira em pessoa. Sem dinheiro, sem amparo, sem sorte, sem futuro e sem sono para esquecer sua triste sina por algumas horas.

    PENSAMENTO DO DIAS

    Eu gostava mais das redes sociais quando eles não existiam.

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  • Não gosto de Deus porque não o conheço, nem do próximo porque o conheço.

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  • O erro do cavalo

    Publicado por: • 31 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    Em tempos antigos, vivia-se melhor, no sentido de menos sustos mundiais e locais. O preço da instantaneidade da informação cobra um preço alto. Um espirro no Alasca retumba na Patagônia instantes depois. O estresse é como cafezinho, toma-se um por dia pelo menos. Ah, mas eu preciso estar bem informado, dirão vocês. Para jornalistas por exemplo é. Mas com o tempo você gostaria de menos carga no seu já congestionado cérebro.

    Na minha meninice, eu esperava com ansiedade a chegada do ônibus do seu Curt, que trazia o Correio do Povo no fim da tarde. Então eu era feliz. Deitava de bruços no chão e abria o jornalão, que era estandart e não tabloide como hoje. Lia avidamente notícias sobre fatos acontecidos dias e até semanas atrás. Minha memória é muito boa, imagens cristalizadas daquele tempo tenho até hoje. Lembro até que fiquei espantado com uma nova guerra, a da Coreia, que começou em 1950 e terminou com armistício em 1954.

    Não entendia exatamente o que se passava. Sabia apenas que eram americanos contra os comunistas. Do noticiário político não entendia lhufas. De economia, idem. Mas eu lia tudo. Aliás, as Editorias de Economia só foram  criadas no início dos anos 1970 no vácuo do noticiário político, que ficou muito reduzido, vocês sabem o motivo.

    Enfim,  a velocidade do comboio era bem menor. Ao ver o primeiro trem já no fim da vida, o Thomas Jefferson, que odiava a pressa, teria se virado para um contemporâneo e dito a seguinte frase.

    – O cavalo já foi um erro.

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  • É impressionante como este país se autoferra.

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