• O espírito shoshone

    Publicado por: • 4 mar • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…revelou que o cocheiro não tinha os dois molares, e que um dos dentes da comissão de frente estava cariado”

    Na década de 1970 um grupo de pândegos porto-alegrenses a serviço do hedonismo e do bem comer contratou os serviços de especialistas no ramo, um batalhão precursor para ver se o restaurante ou bar estava à altura dos comensais, como os antigos batedores indígenas a soldo da cavalaria norte-americana. Alguns deles desenvolveram técnicas espetaculares. Um destes batedores, um publicitário local, incorporou um famoso índio batedor da tribo shoshone chamado Coceira no Fiofó, a serviço do Exército americano no século XIX. Incorporou o espírito mesmo, achou que era índio com direito a ÚÚÚ e gritos com a mão na boca.

    Não estranhem o nome. Sabemos que os peles-vermelhas davam aos filhos o nome da primeira sensação ou visão na hora que a criança nascia. Voltando à vaca fria: o publicitário encabeça o grupo, que garimpa um cão quente autêntico. De tempos em tempos, o shoshone gaudério encostava a orelha no chão, pedia silêncio, e descrevia o estabelecimento em que iriam comer.

    – Carrocinha, de alumínio reciclado… latinhas de Skol, não… Skin… salsicha uruguaia Cativelli… é gremista, ôba… molho de tomate paulista, cebola de José do Norte…

    Para não deixar ponta solta na história do índio Coceira no Fiofó, seu espírito redivivo contou que o original morreu atropelado por uma diligência da Wells Fargo, em 25 de junho de 1876. Mesmo moribundo, forneceu a um alto oficial da cavalaria norte-americana a cor e idade dos cavalos e o retrato falado do cocheiro e até do vice-cocheiro. Mesmo nas vascas da agonia, conseguiu revelar que o cocheiro não tinha os dois molares, e que um dos dentes da comissão de frente estava cariado.

    Infelizmente, o militar que colheu seu depoimento não conseguiu transmiti-lo à agência de detetives Pinkerton, porque morreu algumas horas depois, contou Fiofó II. O indigitado oficial chamava-se Custer, general George Armstrong Custer. Desde então, o espírito do shoshone Coceira no Fiofó atravessa as brumas do tempo à procura de alguém que precise dos seus serviços.

    Nem sempre ele acerta. Da última vez, conduziu um grupo direto para uma carrocinha de churros.

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  • Óbitos inesquecíveis

    Publicado por: • 27 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…corre que vivemos a era dos sem-vergonhas, em todos os sentidos”

    Uma incandescente onda de posts no Face reviveu as glórias da Porto Alegre dos anos 1960 e 1970. É incrível, basta alguém postar alguma coisa sobre bares, restaurantes, Centro, comércio e tipos folclóricos que em seguida vem uma enxurrada de aduções. Claro que de gente que viveu a plenitude daqueles gloriosos tempos. Peguei a década de 1950 como adolescente, mas pelo que li e me contaram também foi uma década esfuziante.

    Essa Porto Alegre morreu. Nunca mais. Cada geração tem seus óbitos inesquecíveis e a minha não é exceção. De ouvir falar até gerações mais recentes dizem que gostariam de ter vivido aquela época. Há pouco o jornalista Roberto D’Ávila disse numa entrevista para a ZH que o que mais envelhece é a nostalgia. Não acho. Na minha opinião, olvidar o pretérito no que teve de bom (e ruim) é não encarar a inevitabilidade do tempo. Bom, você tem ou não tem saudade do passado, cada um, cada um.

    Quem me lê no www.fernandoalbrecht.com.br conhece as muitas histórias sobre aquelas duas décadas nos mais de oito anos que edito meu site privado. Ouso dizer que muitas delas circulam na web sem mencionar o autor, o comando que vos escreve. Paciência. Eu teria vergonha de publicar um texto que não fosse meu sem citar o autor. Ocorre que vivemos a era dos sem-vergonhas, em todos os sentidos.

    Um dos primeiros casos que publiquei levou o título de Código 36. Semana que vem republico.

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  • Aluguel de bebê

    Publicado por: • 25 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…em regra, os bebês eram diferentes de um dia para outro – mas a mãe era a mesma”

    Um grupo de amigos jogou conversa fora no Face falando sobre os bons tempos da Porto Alegre que morreu, bares, comidas, figuras folclóricas, garçons, essas coisas. Incrível o interesse que desperta falar dos tempos antigos. Até entendo, porque hoje a cidade não é amigável. Há mais tempo falei sobre as centenas de boates informais com garotas de programa que utilizam a hora do almoço para conseguir melhorar seu salário, ou sobre tipos estranhos ou patéticos, incluindo a fauna que habita o Centro Histórico. Foi um espanto. Mas isso existe? Hoje em dia? Existe. Ou, “ecziste”, como dizia seu Gutterman, um alemão judeu que frequentava o restaurante Dona Maria.

    Uma dessas casas – na maioria, o dono do imóvel não sabia que quem alugava a peça ou sala não era manicure e sim cafetina, então para despejá-las era um parto. Num prédio próximo ao edifício Santa Cruz, na Andradas, um espaço com essas garotas deixava vazar para os corredores hinos religiosos.

    No tempo dos camelôs que congestionavam as ruas centrais da Capital, as mulheres com nenês no colo que pediam esmolas na frente da Igreja do Rosário pagavam um “aluguel” diário para o dono da rua. Tinha um preço para manhã, tarde, com chuva e sem chuva, mais na frente do templo ou nas laterais. Em regra, os bebês eram diferentes de um dia para outro – mas a mãe era a mesma.

    Na virada para 2000, quando havia dezenas de barracas de camelôs e ambulantes no entorno da Praça da Alfândega – Porto Alegre é a única cidade onde ambulante não ambula – um ex-funcionário público ganhava rios de dinheiro cuidando das barracas durante a madrugada. Na época, ele cobrava cinco reais POR NOITE. Era só ele no pedaço, status garantido por um trezoitão carga dupla. Ante a apresentação do título de propriedade, os aspirantes davam meia volta e se escafediam. Ganhava os tubos.

    O melhor de tudo: sem pagar impostos.

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  • Barcelona

    Publicado por: • 23 fev • Publicado em: Nossos Comerciais, Por favor

    O que tem os clubes de futebol brasileiros em comum com os times de ponta da Europa? Afora o gramado, o jogo, a bola, os atletas, as goleiras, nada. Vejam este comercial longo do Barça, o capricho na produção. Se, salvo algumas exceções,  administrativamente a gestão é basicamente a mesma dos anos 50 e 60, como pretender que o futebol brasileiro chegue ao nível do valoroso coirmão espanhol, entre tantos outros?

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  • Simonal da Latinha

    Publicado por: • 19 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…todo mundo espetava seu guarda-sol no mesmo espaço, de preferência”

    Vamos concordar que a velocidade com que as coisas estão mudando é assombrosa. O que valia ontem não vale mais, e das 18h em diante o que valia hoje já não vale mais nada. Então é óbvio que todos nós temos saudades dos carnavais e dos veraneios antigos. Outro dia vi um rapazote dizer que queria voltar no tempo, que o veraneio de 2005 em Capão da Canoa é que era bom. Imagina, 2005 foi ontem. Agora, ele tem razão. Não consigo achar graça numa cidade do Litoral que sofre de congestionamentos em julho.

    Então o que deixam para mim e a Tramandaí dos anos 1960 e 1970? Ficávamos num espaço à esquerda do Bar Panorama, aquele prédio redondo que foi demolido há alguns anos. Conhecia-se a vizinhança porque todo mundo espetava seu guarda-sol sempre no mesmo espaço, de preferência. Minha mulher gostava de caipirinha, que se buscava no bar Gaivota. Já a cerveja que eu e minha sogra gostávamos chegava de pé-entrega.

    Explico. Um rapaz que apelidamos de Simonal, ou Simona, porque parecido com o cantor, abastecia aquele trecho todo com latas de Brahma para adultos e picolés para a criançada. Até aí morreu Neves, dirão vocês, mas esperem eu molhar o bico: o Simona tinha caderninho. Anotava a despesa e depois do almoço ia nos apartamentos e casas para receber o devido. Nunca levou calote, me contou certa vez.

    Como dizia o Adoniran Barbosa para os Demônios da Garoa, botem sentido no prato e vejam se era bom ou não era. Isso tudo foi para o espaço. Durou anos e anos e virou espuma de onda quebrada na areia.

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