• Bonitinhos e ordinários

    Publicado por: • 15 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…mas é no item boca-livre que os enganos são monumentais”.

    Uma das coisas que as pessoas comuns mais invejam nos jornalistas é a possibilidade de viajar, conhecer pessoas VIP e autoridades e, sobretudo, ter o dia-a-dia recheado de bocas-livres. Fortes emoções. Almoços, jantares e coquetéis de primeira linha, dizem os civis. Há controvérsias. Por partes: viajar a serviço é conhecer o hotel e o aeroporto do país visitado; pessoas VIP ou são inacessíveis ou são malas sem alça de primeira grandeza; autoridades idem, sem falar que não se pode mandar os distintos àquela parte quando eles dizem besteira ou enrolam. Fortes emoções são raras, a não ser que ganhar o bilhete azul seja considerada uma. É rotina sempre, ou quase sempre. Mas é no item boca-livre que os enganos são monumentais. Jornalista calejado morre de inveja quando vê alguém comer um prato de feijão, bife e batatinha frita. Para ele, só comida fashion, pratão desse tamanho todo enfeitado mas com porções microscópicas. E sem gosto. Além do que, quando não é pouca, falta. No caso de coquetéis, os veteranos já descobriram que coquetel bom é coquetel de pobre. Tem pastel, coxinha de galinha e croquete em abundância. E não precisa ir de gravata. Coquetel de rico é B.O: bonitinho mas ordinário. E o refrigerante nunca vem gelado. Então não nos inveje, cara-pálida. Você não sabe o que não está perdendo.

    Publicado por: Nenhum comentário em Bonitinhos e ordinários

  • A lógica do Bispo

    Publicado por: • 14 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…tem que ir a um casamento e abraçar 100 pessoas que nunca viu na vida”.

    Denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do STF sobre o mensalão, o ex-deputado federal Bispo Rodrigues (PL) negou a existência do esquema e se queixou dos “sacrifícios” da vida parlamentar. – Porque ser parlamentar é muito ruim, meritíssimo, é muito ruim. O senhor sacrifica tudo o que o senhor tem. Entra no Congresso de manhã, sai à noite, e não vê o dia passar. Sábado à noite, às vezes tem que ir para um casamento abraçar 100 pessoas que nunca viu na sua vida. E às vezes está em casa, um eleitor seu morreu e você tem que botar um terno e ir lá no enterro. E larga a sua família, sua esposa quer ir ao cinema, e você tem que atender o pedido político. Como dizia aquele antigo bordão de programa humorístico da TV Globo, o macaco tá certo. Na mesma linha, um vereador de Porto Alegre costumava dizer que um político em campanha enfrentava três maldições que, por si só, já o fazia merecer o paraíso. – Vocês pensam – repetia – que é mole agüentar papo e borracho pedindo dinheiro, comer carreteiro de vila e ter cusco de favela mordendo teus calcanhares todo em santo comício?

    Publicado por: Nenhum comentário em A lógica do Bispo

  • Um conselho de panzer

    Publicado por: • 13 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…nein, nein, eu quero um chope e em copo, pequeno”

    O já falecido comerciante Francisco José Albrecht, nascido em Isny in Algau, Alemanha, chegou ao Brasil em 1920 e se radicou no Vale do Caí. No início dos anos 50, ele voltou à Alemanha para visitar seus pais. Cumprido o roteiro familiar, o velho Franz Josef deu uma esticada em Munique e obviamente foi molhar as idéias na famosa cervejaria Hofbrauhaus, um estabelecimento com mais de 400 anos. Na incursão cervejeira, Albrecht teve a companhia de um turista brasileiro, descendente de alemães mas com pouca ou nenhuma ligação cultural, lingüística e etílica com seus antepassados. Instalados numa mesa, pediram cerveja, servido naquelas enormes canecas de um litro. Aí veio uma alemoa parruda carregando cinco canecas cheias em cada mão. – Nein, nein, quero um chope em copo, pequeno – disse o brasileiro em português. A garçonete, talvez um protótipo do primeiro panzer Tiger, só entendeu o “nein”. Olhou interrogativamente para o parceiro, que explicou a ela em alemão o pedido do seu amigo. Ela suspirou, revirou os olhos, largou as canecas na mesa e afagou a cabeça do brasileiro, homem dos seus 50 e tantos anos. – Wir verkaufen kein Bier für kinder. Bitte, kommen Sie wieder wenn Sie erwachsen sind. E deu meia volta para servir outras mesas. Albrecht caiu na gargalhada. Curioso, o brasileiro pediu a tradução. Quando a ouviu, fechou a cara. Significava: – Não vendemos cerveja para crianças. Por favor, volte quando tiver crescido

    Publicado por: Nenhum comentário em Um conselho de panzer

  • A sogra do taxista (final)

    Publicado por: • 12 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “E ela se foi porta afora. Veio a hora do almoço e nada dela aparecer…”.

    – Bom, minha sogra recusou uma carona, dizendo que ia de ônibus. E meu sogro com aquela cara de quem ouviu no rádio a descida de um disco voador. Nem piou. E ela se foi porta afora. Veio a hora do almoço e nada dela aparecer; duas da tarde, e nada, cinco horas, e nada. Tipo sete horas da noite meu sogro me chamou, preocupado. Quem sabe ela se acidentou? Dá uma geral no Pronto Socorro, Delegacia de Trânsito…. Segunda sinaleira fechada. – …aí eu me fui. Não tinha registro no HPS, nem no Trânsito. E já passava das dez horas. Voltei pra casa. A essa altura, o meu sogro estava quase enfartando. Quarta sinaleira fechada. – Aí aconteceu uma coisa esquisita, cara. Quando eu ia saindo para registrar queixa de pessoa desaparecida, ela entrou. Sem pintura na cara, despenteada, vestido meio amarrotado, com uma ar de felicidade que nunca vi nessa mulher. Foi direto pro quarto alegando cansaço. Não deu uma palavra. O sinal abre e o motorista não arranca. Olha para lugar nenhum. Atrás dele começou uma sinfonia de buzinadas. Aí ele se vira para o passageiro. – O que tu acha? Será que essa velha botou um chapéu de vaca no meu sogro? O jornalista pensou, pensou, e resolveu dizer a dura verdade, até porque a essa altura o engarrafamento atrás do táxi se estendia por duas quadras. – Olha… eu acho que sim. Sim. Com toda a certeza, sim. Não tem outra explicação. – Pois agora é que eu me dei conta. Só pode ser isso – arrematou o genro. Minha sogra, quem diria…puta que o pariu! E só então engrenou a primeira e se foi. Mudo. E preocupado. Muito preocupado.

    Publicado por: Nenhum comentário em A sogra do taxista (final)

  • A sogra do taxista (I)

    Publicado por: • 11 fev • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…nunca vi essa mulher com vestido curto, decotada, pintada, perfumada”

    Anos 70, auge da invasão dos argentinos no Rio Grande do Sul. Fim de tarde. Um jornalista entra num táxi no ponto da Borges de Medeiros rumo à redação de Zero Hora. Duas hermanas de meia-idade disparam graçolas em cima dele assim que ele entra. – Mira, que guapo! O motorista ri. Baixa a bandeira e segue rumo à avenida Júlio de Castilhos. – Tá com tudo, meu irmão! Uma coroa tem lá seu valor, não tem? O jornalista não estava afim de papo. Mas o taxista, sim. Loquaz como apresentador de programa de auditório, desandou a falar. E começou a contar um caso. Mudou a cara de risonha para séria. – Esse negócio de coroa dando em cima da gente….fiquei pensando na minha sogra. Olha, cara, eu estou casado há 15 anos, moro com meus sogros e nunca vi essa mulher com um vestido curto, decotada, pintada, jóias, perfume, nada. Nem as unhas ela pinta, sabe? E pra feia não serve. Nunca olhou nem para o vizinho, o que dirá dar trela. Não vai a baile, reunião-dançante. Nem em festa da igreja ela vai, imagina. O táxi pára na primeira sinaleira. O trânsito está pesado. – Aí, meu chapa, no domingo passado aconteceu um negócio esquisito. De manhã cedo, ela saiu cedo dizendo que ia visitar uma amiga de infância. Quase caí de costas quando a vi: de vestido curto, floreado, pintada, perfumada… O carro entra na Júlio de Castilhos. Outro sinal fechado. (conclusão amanhã)

    Publicado por: Nenhum comentário em A sogra do taxista (I)