• A idiotice perfeita

    Publicado por: • 27 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    “…acostume-se com a posição correta do corpo para executar a tarefa de amarrar o calçado com segurança. O risco de perder o equilíbrio é grande quando se faz isto com o corpo curvado ou abaixado. Uma boa posição é apoiar o pé do sapato a ser amarrado no degrau da escada, por exemplo, e manter o outro no chão, com atenção para não perder o equilíbrio. Sentado é a posição mais segura. Crianças podem sentar no chão e pessoas idosas ou com problemas de saúde podem sentar na cadeira e usar um banco mais baixo para apoiar o pé. Escorado ou apoiado nem sempre é uma boa opção.

    Seja eficiente ao dar o laço para que ele não solte facilmente. Mas, como manter o laço firme? Após dar o laço, segure o cadarço no ponto entre o buraco do sapato e o nó do laço com os dedos polegar e indicador, dos dois lados dos passadores, um com cada mão, e puxe para as laterais. O primeiro nó ficará mais firme e o laço tenderá…”

    Esse texto acima é apenas parte de um minucioso manual da arte de amarrar os sapatos. De certa forma é um resumo dos tempos atuais. Mandamos sondas pousarem em asteroides do tamanho de uma cancha de basquete e até Marte, a Voyager está viajando há mais de 30 anos espaço sideral afora, estamos em pleno desenvolvimento de carros sem motorista, e ainda precisamos de manual de amarrar cadarços, cáspite!!!

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  • De calvos e galos

    Publicado por: • 24 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    Piadas sobre economistas são comuns e a categoria as atrai como metal atrai raios. A última – contada por um deles – é perguntar por que os economistas costumam ser carecas. A resposta: porque de manhã cedo eles abrem os jornais e passam a mão na cabeça dizendo:

    – Puxa, errei mais uma!

    Pura maldade. Uma outra história sobre esta nobre e injustiçada categoria é do tempo em que eu fazia o Informe Especial da Zero Hora, nos anos 80. O empresário Carlos Reinaldo Mendes Ribeiro representou a Fiergs em uma missão na Colômbia, a convite do governo local. Entre visitas, almoços, palestras e jantares, ele ficou sabendo que as universidades colombianas despejavam economistas aos magotes no mercado de trabalho.

    Isso obviamente resultou em muitos destes profissionais desempregados. O cabra se formava e não tinha onde trabalhar. O governo então teve que criar cargos para empregar o excedente. Aquela coisa de sempre, no nosso é uma facilidade total.

    Uma das últimas visitas dos gaúchos foi para um aviário modelo de uma estatal colombiana, empreendimento que utilizava técnicas galináceas avançadas. Ribeiro estranhou que os galinheiros, por assim dizer, tinham meia dúzia ou pouco mais de galinhas para dois ou três galos. Puxou a manga do funcionário e disse a ele que, no Brasil, um galo dava conta da mesma quantidade de galinhas. O guia riu.

    – Bem, galo mesmo é só um. Os outros são economistas…

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  • A visão da grama

    Publicado por: • 22 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    Causo dos tempos de aeroclube. Um aluno se matriculou no curso para obter brevê de piloto para escapar do serviço militar, obrigatório da época. Como não se apresentou em tempo hábil, ou tirava o curso de piloto privado ou cana. Era um tipo intelectual, com óculos de aro de tartaruga, sabia tudo sobre o pensamento aristotélico e nada sobre estol e menos ainda sobre a arte de voar. Dizem que ele entrou no CAP4 Paulistinha e perguntou se a primeira marcha era como no Fusca. Mas aí já era maldade.

    Um inspetor do Departamento de Aviação Civil (D.A.C), o Infraero da época, de sobrenome Calmon, ficou com pena do rapaz e pediu para um instrutor, não lembro se do aeroclube de Caxias ou do RGS, na época em Canoas, que desse aulas extras, levando em consideração a lamentável falta de vocação aeronáutica do rapaz.

    Nem ele aguentou o tranco. Desistiu depois de umas boas 10 horas de voo e o expulsou do curso. Contou ao Calmon que em desespero de causa tentou tirar um mínimo do aluno problema. Quando o Paulistinha entrou na reta final, biruta à vista, o instrutor perguntou ao aluno se ao menos pudesse dizer a velocidade e a direção do vento. O rapaz abriu a janela corrediça.

    – Forte. E de frente.

    Meses mais tarde, surgiu outro causo dele. Nas primeiras aulas, quando o grupo de alunos fazia o reconhecimento da pista, alguém perguntou se conseguia ver o fim da pista. Ele apontou o dedo.

    – Mas claro! É ali, onde a grama nasce abrupta.

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  • Convite ao duelo

    Publicado por: • 13 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    Desde que os debates no Congresso Nacional passaram a ser exibidos, o povo em geral abandonou o respeito remanescente que tinha pelos políticos. Não tem como você respeitar alguém e a própria liturgia do cargo quando parte para a ignorância verbal e para o próprio desforço físico. Mesmo quando muito admirado, ninguém resiste à rotina parlamentar. Vistas de baixo, as túnicas deles não raro mostram cuecas sujas.

    Daí que a política parlamentar tupiniquim é a única ou uma das únicas que mistura tratamento respeitoso com palavreado chulo. Há alguns anos eu ainda tinha um arquivo pret-a-porter de insolências ditas em plenário, mas por um desses desastres naturais – eu ainda acho que são os gnomos – perdi o valioso acervo. Mas tenho alguns de memória, embora não lembre a data nem os autores – ou seriam atores? – e a casa parlamentar.

    Um deles aconteceu em uma Câmara de Vereadores nos anos 1970. Digladiavam um vereador governista e outro oposicionista, quando um deles puxou uma ofensa aguda da algibeira.

    – Vossa Excelência é um grande filha da puta!

    Como se vê, não teve atenuantes. O cara foi da primeira à quinta marcha sem passar pelas anteriores. Aturdido, e pasmo com a virulência do ataque, o edil atingido sacou do primeiro .45 que tinha à mão.

    – E Vossa Excelência é…é…corna!

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  • Os ases do baralho

    Publicado por: • 9 abr • Publicado em: A Vida como ela foi

    Com ou sem marqueteiro, eleição sem cabo eleitoral não é eleição. São indispensáveis, e um bom vale ouro, especialmente em eleições regionais. Nos anos 70 conheci um chamado Oswino, que conhecia tudo e todos ao longo das rodovias que levavam ao Interior. Certa vez viajei com ele ao longo da BR-386 e fiquei espantado. Não tinha posto, borracharia, restaurante fino ou pé-sujo em que ele não conhecesse o dono, o garçom, a faxineira. Mais ainda, sabia dos filhos, quem estava na faculdade, quem casou ou ficou viúvo. Mas também há cabos eleitorais, digamos, excêntricos.

    Eleições de 2003. Após almoço em restaurante do Shopping Total, eu e outros colegas e executivos fomos abordados no estacionamento por um senhor borracho. Veio em nossa direção como ir de Porto Alegre a Caxias do Sul via Uruguaiana. Antecedeu-o um bafo de cachaça de matar onça em uma só respirada.

    Depois de várias tentativas fracassadas, puxou do bolso de trás da calça três santinhos de candidatos, agrupados como cartas de baralho. Como ele conseguiu tirar uma grana dos três ao mesmo tempo é um mistério. Dedo em riste, um olho fechado para dar condições de foco para o outro, passou a dar a ficha técnica de cada um. Isso naturalmente levou um bom tempo, porque ia e voltava na peroração.

    Às vezes ele misturava o currículo de um e outro, presumo que para manter a dignidade e o equilíbrio ao mesmo tempo. Naquelas condições é um dos 12 trabalho de Hércules.

    De repente sua voz falhou, entrou em ritmo de câmara lentíssima. Virou os três santinhos agrupados, coçou a orelha – imagino que tenha mirado o cocuruto – e falou sem hesitação, voz quase firme apontando o candidato do meio.

    – Pensando bem, esse não recomendo. É um ladrão! Tem toda pinta!

    Como não sou lá muito adepto da teoria do doutor Cesare Lombroso, salvo em alguns casos de julgamento de caráter, e mesmo assim depois de 10 minutos de papo, fiquei na dúvida. Pela teoria das probabilidades, pelo menos um deles se enquadrava na definição.

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