• Eu não acho

    Fernando-Albrecht-fala-aos-seus-leitores-Eu-Não-Acho-Nada-em-seu-blog

    Publicado por: • 11 set • Publicado em: Caso do Dia

    Eu tenho duas horas e meia a cada dia que procuro não achar nada. É quando vou para a academia do União, esteira e musculação. Especialmente na primeira, desligo a chave geral e até o nobreak. Ficamos eu e meus fantasmas, cúmplices do silêncio. É uma hora inteira sem achar nada.

    De vez em quando, um me reconhece e pergunta o que eu acho. Finjo surdez ou faço aquele abrir de braços como a dizer que não acho nada. Meus fantasmas não gostam da intromissão e alguns ficam muito ofendidos. Pedem que eu faça alguma coisa. Um dia fiz. Na segunda vez que um sujeito me perguntou o que eu achava da situação, parei a esteira.

    – Amigo, desculpa, mas eu durmo achando, acordo achando, escrevo achando, vou para o jornal achando, escrevo o blog achando e só paro de achar quando o sono me acha. Então agora, nesta esteira, eu não gosto de achar nada, certo?

    Contam que certa vez Millôr Fernandes foi a um coquetel meio que na obrigada. Um general o reconheceu e o abordou.

    – Conta uma piada?

    Millôr bebericou seu uísque.

    – Dá um tiro de canhão?

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  • Eram os deuses brasileiros?

    Publicado por: • 11 set • Publicado em: Caso do Dia

    A perda do selo de bom pagador deixou o Brasil mais apertado que rato em guampa. E sem saída. Se escorregarmos mais um pouco perderemos o grau de investimento também nas duas outras agência grandalhonas de risco. Aí, meu doutor, aí vai ser uma barra. O que tenho notado é que há uma gritaria ideológica contra essas agências, como se pudéssemos escapar dos seus julgamentos.

    Ser contra estas instituições é mais ou menos como ser contra a estiagem, ou a enchente. Pelas normas internacionais, governos, fundos de pensão, bancos e empresas de capital aberto são obrigadas a seguir seus critérios. A não-obediência levaria a diretoria direto para o olho da rua por qualquer assembleia de acionistas.

    Secretamente, nós sempre esperamos que alguma divindade nos tire desse buraco, de preferência no curto prazo. Ocorre que os deuses não são brasileiros. Nunca foram. Deus foi, mas por pouco tempo.

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    Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto.

    • Marquês de Maricá •

  • E veio o toró

    Grau-de-investimento-do-Brasil-cai-novamente-explica-Fernando=Albrecht-em-seu-blog

    Publicado por: • 10 set • Publicado em: Notas

    Com a perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s, uma das três grandes agências internacionais de classificação de risco, abre-se um novo e tenebroso caminho para o país. Para quem desdenha do trabalho destas instituições, cabe lembrar que bancos, governos, empresas são obrigados a usar os critérios de pelo menos três destas instituições.

    O dinheiro ficará mais caro, haverá menor aporte de recurso e investimentos, enfim, vai ser o diabo daqui para a frente. Tirar a nota significa que há risco de calote. OK, não quebraremos de vez de um dia para outro, mas lembrem-se que um dos fatores para elevar Joaquim Levy para o cargo que ocupa foi justamente evitar esse desastre.

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  • O surdinho

    Publicado por: • 8 set • Publicado em: A Vida como ela foi

    Há coisa de meio ano fui ao Pizzaiolo, cujo cardápio tem uma pizza que homenageia a página 3 que edito no Jornal do Comércio, Começo de Conversa. Até foi criação minha. Não é nada demais, tomate, presunto e lombo canadense, mas tudo em doses generosas menos o tomate. Foi aí que encontrei o surdinho.

    Quando atravesso o corredor da Churrascaria Barranco para pegar o carro no estacionamento, deparo-me com dois veteranos jornalistas gaúchos. Um deles era o Carlos Bastos, que é do tempo da galena e das filmadoras B&H, usadas na invasão da Normandia em 1944. Parei para uma breve conversa.

    O outro jornalista parecia não entender o que eu falava, porque eu dizia capital e ele entendia cabedal, disse honorários e ele me perguntou o que bancários tinham a ver com o papo, e assim em diante. Passei a falar mais alto, porque obviamente o meu amigo era surdo.

    – Fala alto, porque ele tá completamente surdo – gritou Bastos.

    Respondi usando o mesmo volume de voz que ele usou, quase gritando.

    – Ele sempre foi surdo, só que agora piorou muito.

    O Bastos botou a mão em concha na orelha.

    – Hein?

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