Os 100 metros rasos e eu

22 ago • ArtigosNenhum comentário em Os 100 metros rasos e eu

Novelinha em 3 atos

1º. Ato

Quando eu era guri, mas guri mesmo, com quatro ou cinco anos, e meus pais me mandavam ao armazém fazer compras, ou mesmo ao Grupo Escolar, eu saía em desabalada corrida pelas ruas. Adorava correr! E, na minha lógica infantil, me perguntava: “Por que as pessoas caminham tendo a opção de correr?” Hoje, sete décadas depois, e com 50 kg de sobrepeso, compreendo perfeitamente a razão…

Meu hobby predileto na infância era correr em volta da quadra onde morávamos (que, na verdade, era um triângulo formado pela Fernando Machado, Marechal Floriano e Cel. Genuíno); mais tarde, cheguei a participar de uma prova de Rua de Porto Alegre e, num evento em Capão da Canoa, ganhei uma corrida de 10 voltas em redor da praça central.

Por este motivo, sempre adorei corridas e acompanhava, pelo  noticiário, tudo que acontecia neste esporte, principalmente os 100 metros, que era o charme das provas atléticas. A dúvida entre os que acompanham o atletismo, naqueles anos 50 e 60, era se o homem conseguiria chegar a correr aquela distância em 10 segundos ou menos. Era a grande incógnita.

Fecha a cortina. Intervalo.

2º. Ato

Em função dos meus conhecimentos de matemática, no dia 21 de junho de 1960 fui admitido numa empresa de seguros. Adorei o ambiente. As pessoas conversavam sobre esportes, havia dois conhecidos “pradistas”  e tudo levava a crer que eu me daria bem. À noite daquele dia, coincidentemente, o noticiário anunciava em destaque que o alemão Armin Hary era o primeiro homem a correr os 100 metros rasos em 10 segundos cravados. Um feito histórico sem precedentes para a época.

No dia seguinte, meu segundo dia de trabalho na seguradora, na hora do café puxei o assunto. Meu chefe imediato contestou, alegando que eu estava errado: que o recorde deveria ser em torno de 4 ou 5 segundos, pois ele, em seu tempo de colégio, corria os 100 metros em 6 segundos!!! Eu, educadamente, disse a ele que eu tinha certeza que o recorde era de 10 segundos cravados. Ele, novamente, insistindo que já correra os 100 metros em 6 segundos. A discussão evoluiu – ele e eu alterados – até que a impetuosidade dos meus 17 anos falou mais alto e, num rompante, chamei-lhe de mentiroso.

Cortina rapidíssima.

3º. Ato

Minutos depois eu era chamado ao Departamento Pessoal e comunicado que meus serviços não interessavam mais à empresa, um dia depois de ter assumido. Tudo graças aos 100 metros rasos… Menos mal que me pagaram uma “bolada”: um mês de salário por um dia e meio de trabalho.

Só espero que D´us, na sua misericórdia, tenha conservado vivo meu ex-chefe até os dias de hoje. Chego a imaginá-lo, em volta dos netos e bisnetos, “criticando” o Usain Bolt e seu recorde mundial de 9”58 (ou já é menos?), pois ele próprio corria este percurso em 6 segundos. Te cuida Usain Bolt!

Davi Castiel Menda

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