O vilão sempre é um argentino, ou então, eu

28 ago • A Vida como ela foiNenhum comentário em O vilão sempre é um argentino, ou então, eu

Meu amigo Luiz Odilon, lá das bandas do Alegrete, já escreveu livros e artigos que assombraram o povaréu que gosta das coisas do campo e alhures, entre eles este humilde marquês. Saboreie as palavras e os pensamentos alinhavados pelo ilustre filho do quartel dos feitos pampeanos.

Em seu excelente livro: Tia Julia e o Escrevinhador, Mario Vargas Llosa tinha um personagem, Pedro Camacho, que era autor “picareta” de telenovelas. Quando, por sempre estar precisando de algum dinheiro, vendia antecipado sua obra para posterior entrega. Como as emissoras eram muitas, o serviço sempre estava atrasado, quando em seu enredo usava temas comuns a esta literatura, como: amores, traições, tragédias etc., com as diversas tramas, às vezes, entrelaçadas, só tendo o cuidado de não ficarem exatamente iguais. Não obstante isto, todos os relatos tinham um ponto em comum: o vilão da obra era sempre um argentino.

Lembrei do livro, quando fui fazer um exame do coração, prescrição do meu cardiologista, Matias Kronfeld, que havia agendado antes também para a minha mulher. Na véspera de ir a Porto Alegre, ela “enqueixou”, brigamos, e acabou indo eu somente. Ao me apresentar para o exame, a médica especialista estranhando a ausência do meu antigo par, perguntou por ela. Ao que respondi curto e grosso:
– Peleamos, e ela ficou de castigo.

Ouvindo isto, a doutora comentou, com concordância da enfermeira assistente:

-Mas, e eu que pensava que estes desacertos entre casais só aconteciam quando ainda eram novos, nunca na sua idade.

Como as interlocutoras era bem jovens, senti-me no dever de expor a minha vã filosofia sobre vida a dois, numa destas pode ser útil.

-Na realidade, doutora, disse eu, é exatamente ao contrário do que a senhora pensa, pois pelear os moços também peleiam. Todavia, eles acabam se aproximando novamente por uma série de fortes interesses comuns, mais importante deles: sexo. Este, sim, determinante da união, sua falta sempre acaba em más consequências, enquanto os outros são administráveis.

Continuando a não pedida explicação de vida, disse a ela que os velhos, capados pelo tempo, não se separam só por comodidade, mais fácil é ficar sempre de rusga um com o outro do que “apartar os trapos”, evitando assim uma senil e ruim solidão. Atitude bem ao contrário daquela dos moços,
quando desacertos que levam à separação podem ser, na verdade, uma necessária correção de rota, solução para o par, oportunidade de recomeçar uma nova vida. Toda esta arenga que fiz, foi para explicar porque me lembrei de Tia Julia e o Escrevinhador, isto porque nos usuais “entreveros” caseiros sou bem como o argentino de Pedro Camacho, culpado de tudo.

Para ser bem justo, às vezes, também acho que a velha costela é bem como uma argentina a busca de um autor, tantas as falhas que lhe imputo. No meu caso, respaldado no bom resultado dos exames, fui sozinho depois para um fim de semana insosso e “solito” em Gramado, bem ao contrário das
minhas vãs expectativas, quando esperava encontrar algum coração disponível, tri a fim de programas super eróticos.

Todas estas aventuras que contei, ao voltar para casa sem arrumar “nem pro fumo”, dito daqui do Alegrete para exemplificar uma intenção mal sucedida. Também me fizeram lembrar uma sábia lição campeira, quase todas sempre são: “Velho vendo miragens no deserto da vida, é bem
como um cavalo “piqueteiro” ao ser solto no potreiro da recolhida, sai galopeando e escaramuçando até o seu fundo, porém, de tardezinha, estará seguramente com a cabeça sobre a cerca do parapeito das casas.”

Para concluir, vou confessar e advertir que, no meu relato, infringi outro bom entendimento do campo: “Quem se abaixa demais mostra o bumbum”.
E eu, incauto, pelo teor do texto, mostrei o meu.

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