O tango das carentes

9 jun • A Vida como ela foiNenhum comentário em O tango das carentes

O trecho à direita de quem sobe a avenida Independência, passando a Santo Antônio, abrigou casas lendárias de Porto Alegre, a Tia Dulce e uma casa de tangos nos fundos do mesmo prédio. A Tia era da Dulce e do seu Cassel, um descendente de alemães que lutou na II Guerra Mundial ao lado dos americanos. Certa vez, ele me mostrou a Colt.45 que usou no conflito.

O período áureo da Tia foi nos anos 60. Quando os bares e boates da Indepê fechavam, aproava-se a Tia para tomar a sopa de cebola. Supimpa. Engraçado como essa sopa, típica para clima frio, desapareceu nos restaurantes de Porto Alegre. A casa de tangos, no fundo do prédio, foi de um argentino aquerenciado cujo nome me escapa.

Viúvas, desquitadas ou solteironas suspiravam quando ele cantava. Predadores noturnos também sempre abatiam alguma vítima carente. Certa madrugada, um grupo de amigos entrou na casa com aquele ar sofrido, bem de acordo com a clássica definição do tango, um sentimento triste que se baila, segundo o compositor Enrique Santos Discepolo.

A certa altura do show, o cantor jactou-se que conhecia centenas de letras de tangos, sabia de tudo de Le Pera a Discepolo passando por Edmundo Rivero, do Viejo Almacén. E lançou um desafio, que pedissem qualquer música. Foi a deixa para um dos gaiatos.

– Canta aí um tango que não termine com “tcham-tcham!”

Existiam, claro, mas na hora deu branco no cantante. Pensou, pensou, ficou vermelho, vacilou. Quando lembrou era tarde, Inês era morta.

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