O novato

10 out • A Vida como ela foiNenhum comentário em O novato

O plantonista do necrotério preenchia o formulário de entradas e saídas do dia. Era de noite, tudo quieto no prédio e muito mais quieto no necrotério, iluminado por luz fosforescente. Outra fonte desta luz estava em cima da mesa. De repente, aparece um sujeito à sua frente. A luz forte não deixava ver bem o rosto do visitante.

– Estamos fechados. Como o senhor entrou?

– Sou novo aqui, desculpe tê-lo assustado. Eu queria um favor, se não for pedir muito, doutor.

O legista botou a tampa na caneta.

– Diga.

Ele tossiu.

– O ar aqui é gelado pra caramba, mas bem, eu sempre tive curiosidade em saber como vocês identificam os cadáveres, sabe, de repente pode haver um engano terrível e a família enterrar o cara errado.

O doutor ia responder, mas o novato se antecipou.

-…então lembrei dos filmes em que aparecem necrotérios e cadáveres, e aí vi que vocês colocam um cartão de identificação e o penduram no dedão dos mortos.

Fez-se um breve silêncio. O plantonista teve um lampejo.

– Peraí, acho que já nos conhecemos! De onde?

– Daqui mesmo, presumo. Mas voltando ao assunto do dedão. O favor que eu queria é simples: o senhor poderia substituir o cordão com o cartão por outro sistema?

Então ele levantou o camisolão e mostrou o pé.

– É que me dá muita coceira, meu caro, sou alérgico a barbantes e assemelhados. Estou aqui há uma semana e, além do frio polar que faz na minha gaveta, meu dedão coça sem parar. É muita coisa.

Pasmo, o médico viu o sujeito arrancar a identificação, jogá-la na mesa, caminhar em direção à sua gaveta, que abriu. E nela se deitou.

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