O naufrágio do restaurante (final)

17 fev • A Vida como ela foiNenhum comentário em O naufrágio do restaurante (final)

Restaurado após o incêndio de 1973, surgiu um problema oposto no Restaurante Dona Maria: passou a enfrentar alagamentos a cada chuva mais forte, coisa de uns 20 centímetros de água, um horror. A água vinha da Rua da Praia e só sossegava na rua José Montaury, Centro. Quando isso acontecia, um fleumático Ernesto não saía da mesa, só pedia um engradado vazio de cerveja e nele botava os pés. Ali ficava como se um Buda austríaco fosse. Certa noite, veio um toró dos diabos. Minutos depois a casa quase boiava, a maioria dos clientes se mandou. E seu Ernesto e eu sentados sem dar pelota para o dilúvio, comendo salsicha bock e queijo Port Salut.

Sempre que conversava, o austríaco Moser pegava um palito e batia nele com o paliteiro, à guisa de martelo. Foi então que ouvimos um barulho esquisito vindo do fundo, um chap-chap-chap de alguém caminhando com água pelos tornozelos, quase aquaplanando. Era o médico. Veio direto em cima do Moser e então falou com carregado sotaque nordestino.

– Aí, seu Ernesto, quer dizer que depois de pegar fogo, a casa agora vai a pique?

Dito isso voltou para a sua mesa e para seu harém, fazendo chap-chap-chap de novo. Silêncio.

Pois depois de ouvir essa, o palito só não ficou cravado na mesa de madeira porque quebrou antes.

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