O Grêmio, o Jockey Club e o Parcão

13 mai • ArtigosNenhum comentário em O Grêmio, o Jockey Club e o Parcão

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No dia 8 de dezembro de 2012, a cidade de Porto Alegre foi contemplada com a inauguração da Arena do Grêmio, estádio considerado um dos mais modernos do mundo. A partida inaugural foi contra o Hamburgo, clube alemão, e vencida pelo anfitrião pelo placar de 2 a 1. Evidentemente, às vésperas da inauguração e, no dia propriamente dito, como não poderia deixar de ser, a imprensa deu amplo destaque ao evento. Tradicional jornal da cidade, referindo-se aos anteriores estádios do Grêmio, informou aos seus leitores que “o primeiro campo foi na Baixada, onde hoje é o Parcão, em Porto Alegre. Mas, o clube cresceu e resolveu mudar de casa.”

Abrindo uma janela, jamais, em toda a História, o ser humano teve tanto material e equipamentos sofisticados à sua disposição, no sentido de preservar fatos e fotos, resguardando-os às futuras gerações. Mesmo assim, alguns jornalistas, escritores e historiadores, que deveriam ser os basilares guardiões dos momentos marcantes da humanidade, seja por desconhecimento, ou pesquisas sem profundidade, cometem pequenos erros, mas que repetidos, terminam transformando, mais tarde, uma invencionice numa verdade histórica.

campo antigo do GrSomente aqueles que têm acima de 65 anos devem ter lembrança da Baixada do Grêmio que, na realidade, confrontava com o Parcão, anteriormente local de corridas do Jockey Club do Rio Grande do Sul, o Hipódromo dos Moinhos de Vento. O campo do Grêmio estava localizado num terreno antes pertencente à família Mostardeiro, em uma área bucólica de Porto Alegre, conhecida como Schützverein Platz. O hipódromo, bem em frente ao campo do Grêmio, no seu sentido longitudinal ia da Cel. Caminha até quase a Rua Quintino Bocaiúva, tendo sido cortado ao meio pela atual Av. Goethe; a área total do Jockey media, praticamente, duas vezes mais que o atual Parcão. Resumindo, o divisor entre o Jockey e o campo do Grêmio era a Rua Mostardeiro: à direita de quem vem do Centro, a Baixada e, à esquerda, o Jockey Club. Atualmente, há um monumento naquelas imediações, relembrando a Baixada, posicionado onde originalmente estaria um dos vértices do antigo estádio gremista.

Grêmio e Jockey, com o desenvolvimento e crescimento da cidade, não tiveram alternativa a não ser mudar de ares. Em setembro de 1954, o Grêmio inaugurava seu moderníssimo Estádio Olímpico (depois acrescido de “Monumental”) no bairro Azenha; cinco anos depois era a vez de o Jockey transferir seu hipódromo para o bairro Cristal.

Apesar da magnitude da construção do hipódromo, de linhas arrojadas e técnicas de construção inéditas, a mudança de local, em pouco tempo demonstrou ter sido uma estratégia errada. O novo hipódromo, afastado do centro da cidade – com um sistema de transportes deficiente nos primeiros anos – exclusivamente em eventos muito especiais conseguia atrair um universo que lhe garantisse sustentação financeira. O porto-alegrense, até a inauguração do seu primeiro Shopping Center, o Iguatemi em 1983, provincianamente sempre orbitou em torno do Centro da cidade – leia-se Rua da Praia – e arredores, e o Hipódromo, para boa parte do público, estava localizado num planeta distante.

A entrada da Caixa no mercado de jogos, antes restrito e monopolizado exclusivamente pelo Jockey Club e loterias estadual/federal, disponibilizando um leque de opções cada vez mais diversificado, oferecendo prêmios milionários, aliada a uma relação custo/benefício exageradamente atraente aos apostadores, colaboraram no sentido de afastar ainda mais os tradicionais frequentadores do hipódromo. Das quatro reuniões semanais que chegou a promover na década de 70, atualmente realiza apenas uma.

Curiosamente, na trajetória do turfe na capital, é interessante relembrar que, no final do século 19 e início do século 20, Porto Alegre chegou a ter quatro hipódromos regularmente funcionando: Boa Vista (atual Av. Bento Gonçalves), Riograndense (Av. Getúlio Vargas no Bairro Menino Deus), Navegantes (Bairro Navegantes) e Independência (Hipódromo dos Moinhos de Vento).

A salvação e a manutenção das corridas no Cristal foram resultado da parceria com a empresa Multiplan, que adquiriu boa parte da área do hipódromo, ali instalando um Shopping Center e outros empreendimentos comerciais. A história seria diferente se o Jockey Club, mesmo com a inauguração de seu hipódromo no Cristal, tivesse mantido, em paralelo, os Moinhos de Vento. Numa projeção, totalmente utópica, é de se imaginar a presença de público a uma reunião noturna, no meio da semana, naquela região central. Seria algo indescritível.

O Grêmio teve melhor sorte. No futebol, nas últimas décadas, vivenciamos um crescimento espantoso, movimentando valores bilionários, favorecendo diretamente os clubes mais importantes. Do ciclo da Baixada, até a nova Arena, se passaram 58 anos e, a ascensão do clube tricolor foi notável sob todos os aspectos, culminando com a conquista de um título mundial, em 1983.

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Do pradinho da Independência, hoje transformado no Parcão, restam as agradáveis lembranças dos craques que ali atuaram. Destaque para Estensoro, o melhor cavalo de todos os tempos, da farda rosa e ferraduras pretas do Dr. Breno Caldas; dos jóqueis Antonio Ricardo, Mário Rossano, José Fagundes, Clóvis Dutra, Roberto Arede, Oraci Cardoso e tantos outros. Suas vitórias e seus recordes, suas tantas alegrias e tristezas, foram substituídas, hoje, por um público ávido na condição física ao praticar o seu jogging, nem imaginando que, aquele mesmo, mesmíssimo local, há 57 anos, era o palco de tantas e tantas emoções, visita obrigatória de políticos famosos e das mulheres mais charmosas da cidade, com seus vestidos e chapéus exuberantes e multicores, nos grande prêmios que ali eram realizados.

A ideia não é nova: nos anos 90, houve a sugestão de colocar um monumento no Parcão homenageando o Jockey Club – a exemplo do Grêmio nas proximidades – mas o projeto não foi levado adiante. Um pedido ao prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, e ao presidente do Jockey, Ricardo Filizola: os poucos turfistas remanescentes daquela época, que ainda teimam em estar vivos, ficariam intensamente agradecidos se fosse realizada esta homenagem, para que a memória e a história não se perdessem.

Fontes: Museu Hermínio Bittencourt (Memorial do Grêmio), Mário Rozano, Hélio Devinar e “Parque Moinhos de Vento: O processo de definição e consolidação como área pública de Porto Alegre” de Juliana de Lucena Capitani e Ana Rosa Sulzbach Cé.

Davi Castiel Menda

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