O golpe do Fusca

24 ago • A Vida como ela foiNenhum comentário em O golpe do Fusca

 As duas únicas cidades do mundo onde a Pepsi-Cola vendia mais do que a sua rival Coca-Cola, no início dos anos 1960, era Nova Iorque e Porto Alegre.  O bordão se deveu pelo empreendedorismo e visão inédita do que hoje chamamos de marketing do licenciado da Pepsi em Porto Alegre, em prédio na avenida Padre Cacique não longe onde hoje é o Shopping Total. Chamava-se Comendador Heitor Pires, um português, que desbancou a Coca em vendas graças à sua visão adiantada para a época.

 Foi o primeiro a patrocinar o Carnaval da Capital Gaúcha, aproveitando uma brecha na briga entre a prefeitura e as escolas de samba, atendia todos os pedidos do Estado para que fosse paraninfo do curso colegial, hoje segundo grau, para citar um lance grande e outro que, graças à boca-a-boca, o transformaram em herói para os estudantes, para ficar só nesses movimentos adrede preparados.

 O lance de gênio do Comendador Heitor Pires foi quando instituiu um concurso para saber qual a torcida dos clubes de futebol era mais fiel. Para isso, bastava juntar tampinhas do refrigerante e entregá-las ao clube, não sem antes levantar a cortiça e curtir os milhares de prêmios, desde beber outra Pepsi de graça até prêmios em dinheiro, além de brindes diversos. O clube que conseguisse mais tampinhas ganhava um ônibus para levar o time aos jogos do Campeonato Gaúcho, novidade na época.

 Mas o que realmente fez explodir a venda da Pepsi foi o prêmio maior escondido abaixo da cortiça, que se usava naquele tempo, um Volkswagen zero, sonho de consumo do Brasil inteiro. Consistia em um desenho do carro. Acho que gastei um belo dinheiro bebendo Pepsi. Só um foi sorteado, um ilustre desconhecido. O clube que conseguiu juntar mais tampinhas foi o Aimoré de São Leopoldo, que ganhou um ônibus também zero.

 Obviamente, que uma ação deste porte, milionária, tinha que resultar em algum tipo de lenda urbana. Contava-se que, depois de encerrada a ação, apareceu um sujeito na fábrica da Pepsi para reclamar seu VW, mostrando a tampinha onde se via o desenho do Fusca, que os gaúchos chamavam de Fuca naquele tempo.

 O comendador ficou possesso, porque só tinham comprado um carro. Obviamente era uma falsificação. Chamou seus assessores e técnicos que examinaram a tampinha com lupa e depois com microscópio. Conferia com o desenho original, inclusive com detalhes de impressão que só um microscópio podia revelar. Os advogados acharam que não tinha jeito, apesar de ser uma falsificação, ela era perfeita, então a Pepsi teria que dar um carro para o cidadão, tudo conferia e uma eventual ação desmoralizaria a marca. Já estavam conformados e prontos para comprar um, quando um subalterno, último carregador de moringa do safári, resolveu olhar o outro lado da tampinha.

 Era uma tampinha da cerveja Brahma.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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