O dom da infelicidade

8 ago • A Vida como ela foiNenhum comentário em O dom da infelicidade

Na esquina da Rua do Passado com o Beco da Solidão, escondem-se causos que murmuram coisas de amores desfeitos na boca como algodão doce. É triste para boa parte da humanidade, se você pensar bem. De verdade, diga-me quantas pessoas das suas relações, incluindo você, tiveram uma vida pródiga, com amor ou amores que fizeram tudo valer a pena e nenhum estilhaço de solidão a atormentá-las?

Há cálculos que chegam a 100 bilhões de almas que viveram na Terra desde o aparecimento da raça humana tal como a conhecemos, não mais que 6 ou 7 mil anos e apenas 5,5 mil anos desde a primeira civilização que deixou registros, a dos sumérios. Tirando os sem-noção, para ser bem franco, poucos poderiam dizer que viveram uma vida que nós chamados de boa e feliz.

Certamente, não foi o caso de um preso que conheci no porão da 8ª DP, logo após ele abrir as celas dos colegas para uma fuga em massa. Foi nos idos de 1969, ano em que uma onda de assaltos deixou a cidade em pânico. Alertado por um telefonema que eu não deveria ouvir, mas ouvi na sala do Plantão da Polícia Judiciária, fui com a viatura da ZH rumo à Protásio Alves.

Em lá chegando, entrei direto para os fundos do prédio, segundos antes de passarem o cadeado no portão para evitar a entrada de bisbilhoteiros como eu. Deparei-me – do lado de dentro de uma das celas – com um sujeito magro, faces crestadas pelos elementos e pelo sofrimento. Mas o que houve? Por que não fugiste como os outros?

Até hoje recordo a cara de infelicidade dele, que chegava a ser sólida ao toque. Por bom comportamento, os policiais o encarregaram da limpeza das celas e, para isso, ele tinha a chave-mestra. Então os bandidos primeira-linha pediram que ele “perdesse a chave”. O resto dá para imaginar. Só que, em vez de levá-lo junto, trancaram-no numa cela.

Imagina a recepção que teve dos tiras quando descobriram como se deu a fuga. O pior é que nem lembro do nome dele. Pensado bem, talvez seja melhor ter esquecido.

Um fantasma sem nome é melhor que um com.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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