O Corcel do Hélio

25 out • A Vida como ela foiNenhum comentário em O Corcel do Hélio

corcel ldo 2

 O Hélio era um sujeito simpático, na casa dos 50 anos, meio careca, sempre de terno e gravata. Sentado, cruzava as pernas com elegância, puxando as mangas da camisa para conferir as abotoaduras de ouro. Gravata Hermès, quando ninguém sabia o que era Hermès. Sapatos reluzentes, modelo clássico, sem fivelinhas e outros que tais. Enfim, um dândi.

 Apesar do ar blasé, eu sentia que o Hélio nunca relaxava. Como conhecia os 9 Passos de Reid de interrogatório criminal, a linguagem corporal diz mais que a linguagem verbal, senti o que a plebe ignara chama de “aí tem!”.

 Tinha. Certo dia, convidei-o para almoçar em uma grande galeteria. Ele se esquivou mais rápido que mangusto fugindo do bote da cobra. Nada de lugares abertos, disse Hélio.

 – Corro riscos.

 Alguma coisa a ver com queixas registradas contra ele na Polícia. Em lugar mais discreto, ele abriu o jogo. Tirou do forro do paletó uma raspadinha já raspada. Apareceram três fotos do Corcel LDO em sequência, ou seja, premiado com um. Parabéns, eu disse, mas qual a relação?

 – Olha bem –falou ele.

 Olhei com olhos de olhar, mas não vislumbrei nada de errado. Então, ele explicou porque não queria ser visto. Nas cartelas apareciam imagens dos prêmios, e, para ganhá-los, tinha que ter três imagens iguais. Ocorre que, para seduzir o raspador, vinham na maioria dos casos uma ou duas imagens dos prêmios, raramente as três. Estas imagens o Hélio recortava com precisão cirúrgica para decalcá-las em outras, as “premiadas”. Para encurtar o causo: como era bom de trova, seduzia solteironas e viúvas. Contava a elas que tinha que viajar no mesmo dia e oferecia a elas a cartela “premiada” em troca de um cheque com metade do valor do carro, uma pechincha.

 Descontava o cheque e se mandava.

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