O chapéu por testemunha

3 jul • A Vida como ela foiNenhum comentário em O chapéu por testemunha

Quando eu era criança em São Vendelino me encantava com o linguajar dos colonos italianos. Minha terra era puro alemão, mas a fronteira com a colônia italiana parecia traçada a giz. Uma dessas antigas cercas de pedras empilhadas delimitava os dois lados, naqueles tempos. Hoje, baixaram a cerca literal e figuradamente. Alemão e italiano nem sempre se bicavam.

Da nossa casa até a vila, o “centro”, a distância era de um quilômetro de estrada de chão batido. Poucos quilômetros adiante ficava a divisa. Gostava de pegar carona com uma carroça tracionada por dois bois. O cheiro, o ranger das rodas,  a viagem sem pressa, eu adorava. Os gringos me aceitavam porque meu pai tinha grande prestigio em toda a região.

Em um dia de tempo encoberto, calhou de passar uma carreta de gringo. Pedi carona da vila até alguns quilômetros adiante. A volta seria a pé. Começou a chover. Perguntei ao gringo o que faziam quando a carreta atolava.

– Io pego mio capello, enton digo o nome de tutto santi e Dio e grito para que entrem no capello.

Bom, eu falei, então todos entram no seu chapéu, e daí? Gringo gosta de praguejar, vocês sabem.  Para resumir a explicação, depois de chamar Deus e os santos ele dobrava cuidadosamente o chapéu como se pacote fosse. Em seguida, subia na boleia espicaçando os animais.

Perguntei se funcionava. Quase nunca, falou, mas pelo menos ele descarregava a fúria nos santos e do Dono de Tudo enchendo-os de porrada verbal.

Cada povo chuta o pau da barraca a seu modo. Nem que seja chute no chapéu.

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