Morar na água, ou como desistir de acelerar

10 ago • A Vida como ela foiNenhum comentário em Morar na água, ou como desistir de acelerar

 Até chegar o primeiro choque do petróleo, em 1973, a gasolina era barata como verdura murcha de quitandeiro. O barril custava US$ 2,00 e pulou para US$ 11,00 de um dia para outro. Todos os países entraram no modo econômico. Com reservas mais estreitas que fio dental, o governo brasileiro tomou alguns providenciamentos, como dizia o coronel Odorico Paraguaçu. Limitou os horários de funcionamento dos postos e ordenou até o fechamento deles nos finais de semana.

 A ideia mais estapafúrdia para obrigar os motoristas a pegar leve no acelerador foi da VW. A Brasília, carro-chefe de vendas da montadora, passou a ter uma mola diferente no curso do pedal do acelerador. Nos primeiros dois centímetros, a mola era fraca, mas, em seguida, deixava o pedal cada vez mais duro. Para trafegar a 70 Km/h ou mais você tinha que ter pé de atleta, e não falo no sentido clínico, a infecção dos pés, mas literalmente. Para ultrapassar um carro, você quase tinha que ficar em pé usando o peso do corpo para aumentar o giro do motor.

 Os clubes náuticos de Porto Alegre, Veleiros do Sul, abrigavam lanchas potentes com motores beberrões, com cabina, bar, beliche e uma salinha. A mais famosa era a Cabrasmar. Encher o tanque custava uma babilônia de dinheiro, então, saíam de vez em quando. Na maior parte do tempo, ficavam ancoradas no píer, uma do lado da outra. Nos finais de semana, os donos passavam horas dentro delas com ou sem família ou amigo.

 Um deles tinha o apelido de Capenga, por ter defeito em uma perna. Gente fina ele. Não se amofinava pelo apelido e fazia troça do defeito. Fosse hoje, com essa mania de politicamente correto, até ele seria processado por se apresentar “Prazer, Capenga”.

 Certo sábado, ele me convidou para comer peixe frito que ele cozinhava no barco. Lá pelas tantas, apontou a fileira de lanchas Cabrasmar com a popa descoberta.

 – Sabes como é o apelido dessas lanchas?

 Eu não sabia.

 – Porta-copos.

 E arrematou:

 – Como custa muito caro encher o tanque, os donos passam os dias bebendo no barco parado. Só servem para isso.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

FacebookTwitter

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

« »