Estrategista de motel

22 jun • A Vida como ela foiNenhum comentário em Estrategista de motel

Cinquentão separado, sem filhos, tímido, com círculo restrito de amigos e mais restrito ainda de amigas, relata seu drama para colega de academia.  Ele aparenta frustração. Contou que, sem muito gosto por garotas de programa, caras e sem envolvimento, apenas máquinas de sexo de uma só direção, desenvolveu uma estratégia.

– Fiz o seguinte, meu chapa. Entrei nos sites do sexo pago e após algumas furadas achei uma que me parecia ser mais sensível para gente como eu. Começamos a sair, 400 pilas mais o motel. Caro, né?

– Mas eu pensei que não gostavas dessas garotas de programa, são frias e impessoais, concordo.

– Pois é, essa era igual. Mas eu calculei que depois de meia dúzia de encontros ela se envolveria e até baixaria o preço. Talvez até gostasse de mim, tudo que eu queria.

– Mal calculado – falou o parceiro, saindo da esteira e enxugando o rosto com a toalha. – Essa de mulher de programa se apaixonar só nos cabarés do passado. Um jantar no Treviso, flores e uma bijuteria barata mas amorosa costumavam abrir largas avenidas.

– Mas no que deu tua estratégia?

– Saímos sete ou oito vezes e nunca pechinchei preço. Ficava alegre quando ligava para marcar uma saída. Mandava torpedos dizendo que estava com saudades, quando sairíamos de novo, que eu era muito bom de cama, que ela gostava de homens mais velhos. E eu me entusiasmando.

O amigo se arrepiou. Eis um cara que aceita nota de 30 reais.

– Sei que deves estar achando que sou otário, mas te juro que eu via sinceridade nos olhos e no sorriso dela. Um dia, parti para a fase 2 da estratégia. Fiquei duas semanas sem ligar. Ela mandou alguns torpedos, aflita, o que houve meu amor, meu docinho, kisses baby, não me esquece!

– E? Estou curioso.

– Três semanas depois ela enviou mensagem dolorida, o que ela tinha feito, por que não queria mais sair? Não faz isso comigo, logo agora que eu estava começando a gostar mesmo de ti. Aí engrenei a fase 3. Respondi que a grana estava curta, era coisa passageira, mas eu não podia pagar os 400 por enquanto. E sabe o que ela respondeu?

– Diz logo, vivente!

O estrategista pegou o celular e mostrou a troca de mensagens com destaque para a última. Dizia: “Tá ruim pra todos hehehe. Economiza”.

O amigo bateu no ombro do outro à guisa de consolo e foi para o chuveiro. Fosse teatro, o “economiza” seria o último ato. E fecha o pano

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

FacebookTwitter

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

« »