Estado Islâmico – Surgimento e Evolução

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“A centelha – abençoada por Alá –foi acesa aqui no Iraque e seu calor é cada vez mais intenso até queimar os exércitos cruzados em Dabiq (localidade na Síria onde será travada a batalha final do Apocalipse de acordo com os mitos islâmicos).”
Abu Mus’abAz-Zarqawi Fundador da Al Qaeda Iraque

O Estado Islâmico nasceu no Triângulo Sunita, centro – leste do Iraque. Este contorno imaginário abriga alguns lugares caros ao islamismo fundamentalista: Sãmarra – Cidade Sagrada, antiga capital do Império Muçulmano dos Abássidas, entre 836 e 892, e centro político e religioso das tribos sunitas iraquianas; Falujah, capital das mesquitas (+ de 200), palco de ferozes combates entre americanos e jihadistas; ocupada hoje majoritariamente pelo EI – divide o controle da cidade com milícias sunitas que se opõem ao governo; Tikrit, terra natal de Saladino e Sadam Hussein, ocupada pelo EI, porém abandonada em favor da concentração das tropas no sul, província de Al Anbar, para a tomada de Ar Ramadi, cidade altamente estratégica, a cavaleiro da rodovia que liga o Iraque à Síria e à Jordânia, nas margens do rio Eufrates – abriga o controle de barragens e reservatórios de água que suprem regiões do Iraque e da Síria; e Baghdad, cidade milenar, capital do país e de antigos Califados. Triângulo Sunita: vértices – Tikrit, Ramadi e Baghdad.

Surgimento

1. Em 2004, o engenheiro jordaniano Abu Musabal-Zarqawi, integrante da Al Qaeda central, cria uma célula do grupo nas cercanias de Tikrit, Iraque, recebendo de imediato a adesão de vários bandos insurgentes menores. Denominam-se Al Qaeda da Mesopotâmia e seu crescimento deveu-se, principalmente, ao grave erro cometido pelos americanos ao dispersar o Exército Iraquiano, criando uma massa de especialistas desempregados e frustrados facilmente cooptados pela insurgência. Intensificam os ataques contra as tropas de ocupação e implantam o terror, promovendo violentos atentados por todo o Iraque.

No fim de 2005, Zarqawi e dezenas de jihadistas são mortos por um ataque aéreo americano. Assume a liderança o egípcio Abu Ayyub al-Masri, especialista em explosivos e coordenador do terrorismo sob Zarqawi. Em fins de 2006, o grupo passa a se chamar AQI (Al Qaeda Iraque ou ISIS – Estado Islâmico do Iraque e al-Sham) atuando em seis províncias árabes do país. Assume a liderança o Emir Abu Omar al-Baghdadi e Al-Masri torna-se o Ministro da Guerra.

De fins de 2007 a 2009, as atividades do ISIS se reduzem drasticamente em razão de ataques de forças americanas, iraquianas, milícias xiitas e tribos sunitas, estas últimas engajadas graças a um acordo político e financeiro denominado “Operação Despertar”, idealizada pelo Comandante Supremo da Coalizão General David Petraeus. Posteriormente, o acordo foi desrespeitado pelo Governo iraquiano e pelas milícias xiitas, reacendendo as antigas rivalidades religiosas. Em abril de 2010, nas cercanias de Tikrit, tropas especiais americanas matam Al-Baghdadi e Al-Masri juntamente com inúmeros comandantes de campo.

Em maio do mesmo ano, o Imã iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi, doutor em filosofia, egresso da prisão Camp Bucca, é apontado o novo líder. Reorganizou o grupo substituindo as lideranças perdidas por militares e oficiais de inteligência do exército de Sadam Hussein; o famigerado coronel Samir al-Khlifawi, também conhecido como HajiBakr, torna-se o Comandante militar geral. No final de 2011, um grupo de veteranos do grupo é transferido para a fronteira síria com a missão de abrir uma frente de combate contra o regime de Assad, aproveitando a situação caótica criada pela guerra civil no país. Nasce a Frente al-Nusra (Frente da Vitória do Grande Povo Sírio), transformando-se rapidamente no mais forte oponente ao governo sírio.

Em junho de 2014, Baghdadi promove a integração do ISIS com a Frente al-Nusra, criando o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL ou ISIS no jargão internacional), hoje simplesmente Estado Islâmico (IS ou EI). Algumas lideranças da Frente Nusra discordaram da fusão, permanecendo fiéis à Al Qaeda central. Contudo, a maioria dos seguidores aderiu ao EI, sobretudo os destacamentos de choque – chechenos e outros caucasianos, veteranos jihadistas iraquianos, afegãos, argelinos e dos Balcãs. Desde então, milhares de voluntários da Síria e da península arábica, de muçulmanos europeus e de outras nacionalidades (+ de 50) se juntaram ao EI. É difícil precisar o número de militantes do EI, embora diversas fontes estimem em mais de 30.000. Em 29 de junho de 2014, Baghdadi anuncia na mesquita de Al Nuri, em Mosul, Iraque, a implantação do Califado aos moldes daqueles dos séculos 8 e 9 e se autoproclama Califa Ibrahim – chefe religioso dos muçulmanos de todo o mundo.

Expansão 

2. A estratégia do EI é territorialista – ocupar a maior extensão de terras possível. O objetivo é controlar uma vasta região e com isso obter legitimidade religiosa e política, porquanto a Sharia (1) determina que o Califado só possa subsistir com a permanente conquista e ocupação de territórios. A pretensão do Califado é a de assenhorar-se do Oriente Médio, incluído Israel e Arábia Saudita, da Ásia muçulmana (dominam a província de Logar, Afeganistão, fronteira com o Paquistão, onde controlam a produção e tráfico de heroína) e expandir o domínio para o norte da África (ocupam a cidade de Sirte, Líbia, importante porto e terra natal de Muhamar Kadaffi, onde coordenam o tráfico de imigrantes ilegais para a Europa), Egito e Argélia. Ademais, o EI tem sólidas ramificações no Yemen, na Nigéria, Tunísia (de onde provém o maior número de voluntários), Argélia, Sudão, Chechênia, Daguestão, Turquestão (onde já existe um Emirado), no Mali e outros países. Grupos terroristas sob seu comando atuam na Europa, no Cáucaso, Egito (Sinai), na Arábia Saudita, Faixa de Gaza e Líbano, entre várias outras regiões. Comandam, igualmente, os chamados pelos Serviços de Informações ocidentais de “lobos solitários”, militantes totalmente integrados nas sociedades locais, vivendo despercebidos, que são acionados pelas redes sociais para praticar ações de terror. Supõe-se que cerca de 10 milhões de pessoas vivem hoje em zonas controladas pelo EI, que já se comporta e funciona como um Estado: controlam a Justiça, serviços sociais, escolas, policiamento, comércio. Não uma nação, mas um Estado em construção, com atribuições definidas. Os jihadistas do EI têm pretensões de ser um Estado; eles não se chamam Estado Islâmico por nada. Consolidado o Califado, o próximo passo é o ataque a Roma. Não se trata do antigo Império Romano do Oriente apontado na Sharia, mas qualquer exército, país ou continente infiel, sobremodo os Estados Unidos e Europa.

Financiamento

3. O Instituto de Energia do Iraque calcula que o EI extrai de 30.000 a 50.000 barris de petróleo/dia no Iraque e na Síria, faturando mais de um milhão de dólares diariamente. Possivelmente, esse valor reduziu-se por causa dos ataques aéreos da Coalizão às refinarias e oleodutos controlados pelo grupo. O EI, através de intermediários, fornece gás para o regime sírio recebendo em pagamento energia elétrica para as zonas ocupadas – tudo é possível no Oriente Médio. Outras fontes de renda são a venda de antiguidades, doações do mundo inteiro, taxas diversas além da extorsão em larga escala, pedágio (controlam passagens na fronteira Síria/Iraque), contrabando, narcotráfico (principalmente heroína proveniente do Afeganistão), venda de proteção, sequestros e outras atividades criminosas em larga escala. Analistas da RAND estimam que o EI tenha arrecado em 2014 cerca de 600 milhões de dólares provenientes de extorsão e cobrança de taxas da população (representando hoje mais de 50 % da receita total) e 500 milhões de dólares em dinheiro roubados de Bancos iraquianos. Recentemente, forças especiais americanas mataram em Deirez-Zor, na Síria, o tunisiano Al-Sayyaf, encarregado das transações de gás e petróleo do grupo. Aparentemente, os negócios do EI nessa área não sofreram contratempos. As taxas cobradas da população também financiam os serviços mínimos de infraestrutura (luz e água potável) e a distribuição de pão, tudo gratuitamente. Todavia, o EI tem seu calcanhar de Aquiles representado pela possível interrupção da produção de petróleo por força dos ataques aéreos e a possibilidade do rastreio da movimentação bancária internacional e confisco das doações externas. Em vista das inúmeras e diversificadas fontes de renda, presume-se que o EI não tenha, por ora, maiores dificuldades para financiar suas operações militares. E, a medida que se consolida como Estado organizado, o que já é uma realidade, será muito difícil atacar e destruir sua estrutura econômica/financeira. Já se preparam para lançar a própria moeda.

Decisões 

4. É inegável que o EI é uma organização militar e tem atraído inclusive psicopatas e aventureiros, porém é também profunda e radicalmente islâmico. A religião que prega deriva de interpretação coerente e até erudita do Islã. Praticamente todas as decisões e leis promulgadas pelo EI se atêm, pontualmente, à denominada “metodologia profética”, quer dizer a profecia e o exemplo de Maomé. Distingue-se de outros grupos jihadistas porque se considera personagem central dos desígnios de Deus. Tem preocupações mundanas (como recolhimento de lixo e fornecimento de água potável nas áreas que controla), mas sua razão de ser é o Fim dos Tempos.

Táticas 

5. Embora se possa sugerir que a força do EI reside na frouxa oposição da comunidade internacional, na ausência de uma forte reação militar local, no suporte internacional angariado e na colaboração e apoio político das tribos sunitas em áreas ocupadas, nada disso desafia a realidade de que – no plano tático – o EI é uma máquina de guerra eficiente e letal. Os fatores que imprimem eficiência tática ao EI podem ser resumidos no comando e controle descentralizados da máquina de guerra; novas táticas militares híbridas, mesclando guerra convencional com táticas terroristas, guerrilha urbana e atividades criminosas; emprego efetivo de plataformas blindadas em operações ofensivas (p.ex. ataques com carros-bomba); dispersão; preservação do momentum da iniciativa a qualquer custo; exploração efetiva da topografia do terreno; planejamento simples e flexível; e condução das operações com altos níveis de iniciativa e moral elevado. A estrutura de comando do EI é do tipo bottom-up command structure (envolve inteiramente os militantes nas decisões de comando “de baixo para cima”, cria um ambiente favorável à elevação do moral e a um senso de responsabilidade com o resultado das operações militares, que os faz lutarem ferozmente para atingir os objetivos traçados) focada em obter ganhos limitados que são expandidos passo a passo. As ordens do EI são breves, estabelecendo qual é a missão em termos simples, deixando o modus operandi a cargo das unidades de combate. O EI privilegia a mobilidade em alta velocidade, a surpresa, a manobra e a infiltração (noturna se possível) por meio de equipes de três a doze homens fortemente armados (2), conduzidas em veículos civis do tipo technicals (3).

Operação 

6. A operação típica do EI começa do seguinte modo: uma unidade blindada (carros de combate/ viaturas blindadas de transporte de pessoal) ou várias equipes móveis em technicals fortemente artilhados (4) é alertada via WathsApp, mensagem no Facebook ou Twiter, ou ainda mensagem de texto de celulares e, se esses meios não estão disponíveis, pelo sistema próprio de rádio a se reunirem em determinado lugar a certa hora. É a primeira vez que se veem unidades de combate empregando as redes sociais em operações militares. Antes das operações, o EI dissemina mensagens de propaganda via rádio, TV e redes sociais para desmoralizar e atemorizar os adversários e a população civil que vive nos complexos alvos do ataque ou próxima deles.

Unidades de comando e logística se reúnem às unidades de combate em um determinado ponto de encontro para acertarem o dispositivo de ataque e prepararem os suprimentos exigidos. A seguir a operação é posta em andamento, preferencialmente após as orações da manhã, buscando romper o ponto mais fraco da defesa inimiga. Os technicals vão à frente criando bases de fogo de apoio para o ataque da infantaria que depende da natureza da oposição inimiga. Apesar da grande quantidade de peças de artilharia detidas pelo EI, não há uma artilharia orgânica capaz de efetuar barragens de fogo rolante ou contrabateria, de modo que a verdadeira artilharia do grupo são os carros-bomba dirigidos por suicidas ou por controle remoto. O fogo de apoio é realizado por metralhadoras pesadas, canhões automáticos, morteiros e foguetes. O EI é capaz de criar um bem-sucedido equilíbrio entre o tempo de combate e o plano de ataque, pois o alto tempo de combate é rotina para o lutador do EI, mas difícil de suportar pela tropa opositora.

Sagrado 

7. O Ramadã é o mês sagrado para os seguidores da religião muçulmana. Este período recorda o momento em que Maomé recebeu o Alcorão, o livro sagrado do islamismo. Neste ano de 2015 acontece de 18 de junho a 17 de julho. Historicamente, é época de aumento do terrorismo no Oriente Médio, geralmente atentados suicidas ou carros-bomba. Visto que no próximo dia 29 decorre um ano da proclamação do Califado, é possível que o EI promova uma ação espetacular. No plano estratégico, há várias possibilidades, entre elas: no Iraque, apesar da pressão do Exército e das milícias xiitas sobre Ramadi, a tomada da importante cidade de Samarra a meio caminho de Bagdá; atentados na própria capital. No caso da Síria, é praticamente impossível prever qualquer movimentação, pois o EI, por um lado, combate o regime sírio, e por outro está sob ataque de todas as forças insurgentes que lutam na Síria, sobretudo as milícias curdas. Contudo, os alvos do EI permanecem viáveis: ataque à base T4, próxima de Damasco, onde está baseada quase toda a Força Aérea síria e um grande arsenal com suprimentos, armas e munição de todo tipo, além de carros de combate e viaturas blindadas; atentados na capital, em Homs e no porto de Latakia, esse último de vital importância para o regime, pois é a grande entrada e saída para o Mediterrâneo, além de base da Marinha síria. Não obstante, é (pouco) provável que a situação permaneça estabilizada conforme os mapas abaixo.

(Porto Alegre, 15 de junho de 2015).

Notas

(1). Sharia é um termo árabe que significa “caminho a ser seguido”, mas que historicamente é empregado para referir o conjunto de leis da fé compreendido pelo Alcorão, a Suna  (obra que conta a vida do profeta Maomé) e sistemas de direito árabe antigos, tradições e costumes e o trabalho de estudiosos muçulmanos durante os primórdios do Islã. Numa interpretação estrita do islamismo salafista, que remonta ao século XVIII, a Sharia, lei revelada por o Deus perfeito e eterno, é obrigatória para os indivíduos em todos os seus detalhes. Os muçulmanos que negam sua validade são rotulados por tradicionalistas islâmicos como infiéis ou apóstatas (os que se convertem a outra religião) – enfrentam a pena de morte. No caso dos cristãos, a pena de expulsão ou de morte pode ser elidida pelo pagamento de pesadas taxas.

(2). As esquadras são equipadas com pistolas semiautomáticas e submetralhadoras de diversas origens, fuzis de combate AK47 e M16, metralhadoras médias e leves de uso geral russa e americana, fuzis de precisão russos, chineses e americanos, lançadores de granadas portáteis ou acoplados aos fuzis de combate e o lança-rojão RPG russo, a arma preferida em função da sua notável versatilidade.

(3). Technical é uma viatura de combate improvisada, baseada em veículo civil tracionado nas quatro rodas, tipo pickup. Na caçamba podem ser montados diversos tipos de armamento. O termo se origina na Somália por volta de 1990. Na ocasião, as ONGS, impedidas de contratar forças de segurança privada, empregavam pistoleiros e milicianos locais motorizados pagos sob a rubrica technical assistance grant– “subvenção de assistência técnica”. Com o tempo, passou a ser a denominação de qualquer veículo armado.

(4). Metralhadoras pesadas calibre 12,7 e 14,5 mm (russas e americanas); canhões automáticos bi-tubo calibres 23 e 30 mm (russos), montados em reparos estabilizados por giroscópios; lançadores múltiplos de foguetes calibres 57 e 122 mm (russos); morteiros de vários calibres (60 a 120 mm) de diversas origens; e lançadores de “mísseis contra carro”guiados (russos, americanos, europeus e chineses).

Fontes de Consulta

http://www.syriahr.com/en/
http://www.theatlantic.com/
http://www.rand.org/
http://www.aljazeera.com/
http://www.longwarjournal.org/
http://topwar.ru/
http://www.businessinsider.com/
http://www.understandingwar.org/
http://edition.cnn.com/
http://www.nytimes.com/
https://www.academia.edu/
http://www.washingtonpost.com/
http://www.theguardian.com/
http://www.lemonde.fr/
http://www.iraqjournal.org/
http://tass.ru/en
http://www.monde-diplomatique.fr/
http://www.al-monitor.com/pulse/home.html
http://theatrum-belli.org/
http://www.islamist-movements.com/
http://sputniknews.com/
http://www.clarionproject.org/news/islamic-state-isis-isil-propaganda-magazine-dabiq
https://www.bellingcat.com/resources/2015/05/26/analyzing-bin-ladins-bookshelf/

Frederico Aranha

Servidor Jubilado da Justiça Federal, Advogado, Especialista em História Militar, Membro da Academia Brasileira de História Militar Terrestre, Pesquisador de Sistemas de Armas, Escritor, Articulista.

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