Do pôster ao caixão

5 dez • A Vida como ela foiNenhum comentário em Do pôster ao caixão

M. deixou o serviço púbico federal premido por uma sindicância interna. Ou você pede o boné ou vai se incomodar com a justa, recomendaram – justa era Justiça, na gíria daqueles tempos. Ele deixou e disse aos amigos, entre eles eu, que seria empresário. Tempos depois, estava eu posto em sossego no bar do Hotel Plazinha quando ele me avistou. Sentou-se à mesa. Era muito simpático meu amigo vigário geral.

– Não sei porque não saí antes do governo. Estou ganhando dinheiro pra valer.

Foi vago em descrever o ramo, mas pelo que entendi era impressão e distribuição de posteres que os camelôs vendiam nas esquinas, fotos de carros, praias, paisagens etc.  Passaram-se mais alguns meses, e nos encontramos de novo. Havia ampliado sua veia empreendedora para três áreas, carnês que davam carros como prêmios – no caso, um específico para doar cadeiras de rodas para deficientes físicos -, outro no comércio de telefones (antes da privatização e chegada do celular) e o último no ramo dos seguros.

Tempos depois, meu amigo virou notícia de jornal por três episódios em sequência. Os carnês eram frios e nunca deu uma só cadeira – quando o prenderam, jurou que ia entregar a primeira. O comércio de telefone consistia em pegar os caríssimos números telefônicos de viúvas ou idosas, que chegavam a valer US$ 4 mil (antes da privatização), pedindo uma procuração para alugar o telefone em troca de uma pequena comissão. Um dia, caiu a ficha das coitadas. Todos os números foram vendidos graças à procuração. Nunca repassou valor algum.

No ramo dos seguros, o empreendedorismo foi mais criativo ainda. Certo dia, abri o jornal e estava lá a foto da exumação de um suposto cadáver que deveria estar, mas não estava no caixão. O genro da suposta falecida tinha contratado seguro alto e, uma semana depois, a velhota bateu as botas. A seguradora desconfiou, acionou a Justiça, e exumaram 60 quilos de pedras.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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