De comum acordo

5 fev • A Vida como ela foiNenhum comentário em De comum acordo

 Em uma das minhas incursões no mundo de publicidade, dei-me mal nem um ano depois de trocar jornal impresso por uma agência de propaganda. Antes de mais nada, é preciso dizer que até não me saí mal, conforme atestam amigos e conhecidos da época. Mas, para ser publicitário, é preciso vocação, como no jornalismo. Eu trabalhava com projetos e planejamento ligados à imprensa, rádio e TV. Confesso que estar do outro lado do balcão sempre me deixava um pouco desconfortável. Era divertido e coisa e tal, principalmente quando me escalaram para ser ator de comerciais de TV, como já contei, mas, no balanço final, não nasci para isso.

 Pois em uma sexta-feira extremamente tensa fui chamado por um cliente que vendia máquinas de grande porte, que tinha vendido muitas de uma só vez. Recebi o briefing para o clássico release e, como havia urgência para pegar os jornais do final de semana, pedi uma salinha com máquina de escrever e me fui emparelhar as letrinhas, coisa que sempre faço com gosto. Finda a tarefa, submeti o texto para um diretor da empresa.

 Ele leu, releu, e pela cara dele vi as rugas da sua testa diziam “não gostei”. A segunda opinião veio da boca dele.

 – Olhe, vou ser franco, está errado. Nós vendemos xis máquinas então quero um release para cada uma.

 Ainda argumentei que a graça da coisa era exatamente a quantidade dos produtos vendidos, isoladamente não despertariam interesse. Em vão. Ele fincou pé e queria do jeito dele e me olhou de forma desafiadora. Afinal, ele era o cliente e eu, empregado. Pensei por alguns segundos e devolvi as palavras dele com minhas convicções.

 – Vamos fazer o seguinte, diretor. Eu não ensino o senhor a vender máquina e o senhor não me ensina a escrever.

 Quando cheguei na agência no final do dia, logo vi o dedo indicador do patrão espetado na minha cara com a mensagem “estás despedido!”. Antes que ele a verbalizasse, saltei na frente.

 – Não precisa me demitir. Eu é que peço demissão.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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