Da paralisia cerebral à militância

4 jul • ArtigosNenhum comentário em Da paralisia cerebral à militância

* Emílio Figueira

Quando fiquei com paralisia cerebral durante o meu parto no final dos anos 1960, com sérios danos na fala e na coordenação motora, para grande parte das pessoas eu já estava com o meu destino traçado: ser dependente das outras pessoas, isolado dentro das instituições. Ainda mais naquela época em que nós, pessoas com deficiência, vivíamos totalmente excluídos da sociedade. Como conto no meu recém-lançado livro “O Caso do Tipógrafo – Crônicas das minhas memórias”, vivíamos uma época que os estudos e técnicas de tratamentos ainda engatinhavam. Por cinco anos usei aparelhos em quase todo o corpo para ele endurecer. Assim fiz parte de muitos outros experimentos e pesquisas no início dos anos 1970.

Alguns médicos chegaram a dizer que eu nem seria alfabetizado. Só que meus pais não acreditaram nisso e me ensinaram a ler e escrever aos cinco anos de idade. E, ao descobrir o mundo das letras, se minha vida fosse uma fábula, eu começaria assim: era uma vez um menino que, aos cinco anos, já escrevia seus primeiros textos e dizia que seria um escritor.

No final dos anos 1980, ao deixar essa cidade e ir morar em outra bem maior, eu estava sem rumo. Passei por algumas entrevistas até chegar à psicóloga. Ela começou me criticando duramente por não andar sozinho pela cidade, mas eu tinha acabado de sair de uma cidade com seis mil pessoas para viver em outra com trezentos e vinte mil habitantes. Tudo ainda era muito novo e assustador para mim. À certa altura, ela me perguntou o que eu gostaria de fazer. Expliquei-lhe que era um jornalista e desejava dar continuidade a isso. Ela me disse secamente: “Você precisa tomar consciência que é um deficiente e por isto não pode ser um jornalista!” Eu simplesmente desejei-lhe um bom dia, levantei-me e nunca mais voltei lá.

Hoje muitas pessoas se espantam ao saberem que, mesmo com paralisia cerebral, tenho três graduações, cinco pós-graduações e dois doutorados. Tenho mais de 80 livros editados, 98 artigos científicos publicados. E, enquanto jornalista, já publiquei mais de 500 textos. Grande parte voltados às questões humanitárias!

Emilio- (1)Hoje moro novamente em São Paulo e há sonhos que nunca morrem. E vou continuar a alimentá-los mesmo conhecendo todos os meandros e dificuldades da minha profissão! Àquela psicóloga que nem de longe representa o pensamento de nossa categoria, pediu-me para ter consciência que eu era um “deficiente”. Porém, ao longo da minha existência, preferi ter a consciência que, como qualquer pessoa que sonha e vai buscar seus objetivos, sou totalmente capaz! O importante é que aquele menino limitado por sua paralisia cerebral, alfabetizado aos cinco anos e que queria ser escritor, nunca deixou de sonhar!

*Emílio Figueira é jornalista, psicólogo, palestrante e escritor

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