As donas da noite (*)

10 mai • A Vida como ela foiNenhum comentário em As donas da noite (*)

  A maior parte dos cabarés dos anos 1960 tinham nomes de mulheres, que vinham a ser as donas do negócio. Em Porto Alegre, os mais famosos eram a Lygia, a Dorinha, a Soninha, a Marlene, a Miriam. As moças de vida airosa topavam um namoro e até uma paixão, se você tivesse plena consciência que o Ponto G das mulheres é no ouvido.

  Quando eram casas de segunda, geralmente era da cultura da camisa de “fisga comprada em sumercado”, como diz o povão, a Casa da Gorda ou da Marvina, coisas assim. Casa que se prezasse tinha sempre uma pista de dança, discos (LP) em boa quantidade. Às vezes, um cantor ou show mais intimista. Bebia-se Cuba Libre, cerveja, uísque, mas nada de cachaça, Deus m’o livre. Cachaça só na Marvina ou na Gorda. Aí já era terceiro time.

  As madames faziam questão de cuidar da saúde física e mental das garotas, que nem sempre eram tão garotas assim. Essa coisa de 18 anos não existia, salvo como exceção. Na maior parte, eram mulheres acima dos 26/27 anos e não raro, adentradas nos 30. As donas compravam briga com fregueses inoportunos ou violentos – esses apanhavam como cães de rua sarnentos – mas quando era o gigolô, então, não tinha jeito. Recebia conselhos tipo “larga esse bosta!”, “ele quer te estragar|”. Mas nós sabemos como funciona o amor bandido.

  Uma outra atividade das proprietárias dos cabarés era arrumar um marido ou amante rico para suas filhas – assim eram chamadas – e vi muita mulher da vida casar com amigos meus e serem felizes para sempre. Estavam fartas de fingir amor, prazer e rir risos sem alegria. Conheci várias, algumas tinham cultura acima da média, apreciavam música erudita e literatura.

  Tudo isso se foi. Pelo menos em qualidade.

(*) O título remete a um programa de música da antiga Rádio Guaíba, Varig, a Dona da Noite. Isso no tempo que a Varig tinha talheres de prata no serviço de bordo.

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