As aspas do Boeing

9 mai • Caso do DiaNenhum comentário em As aspas do Boeing

 Volta e meia algum saudosista lembra da velha Varig e como eram de primeira seus serviços de bordo, a ponto de voos internacionais terem até caviar no cardápio. Verdade que não era caviar beluga, extraído de um raro esturjão do Mar Cáspio, e que hoje o beluga de segunda ronda os R$ 60 mil o quilo – não é 6, é 60 mesmo. Os talheres eram de prata e a tripulação sabia que a maioria dos passageiros os levava para casa.

 A geração atual, que mesmo com salário de uma categoria com salários muito baixos, como jornalista, pode ir a Paris sem problemas. Ocorre que, naquele tempo, anos 1950 e 60, só a elite podia viajar de avião, mesmo em voos domésticos. Então esses manjares e esses afanos estavam embutidos no preço da passagem. Não fiz a conversão, mas um voo para Nova York seguramente não baixava de R$ 20 mil em dinheiro de hoje. De qualquer maneira, era um desperdício que se refletia no lucro.

 O que a Varig não economizava era na beleza das aeromoças. O primeiro Boeing 707 que ela comprou chegou em 1958, e um ano depois foi aberto à visitação pública. A fila era enorme, então se entrava por uma porta e tinha que caminhar rápido porque um comissário (por que nunca o chamavam de aeromoço?) falava algo do tipo “vá em frente porque atrás vem gente!”.

 E eu lá, com meus 16 anos. Então levei um choque ao ver uma aeromoça maravilhosa sentadinha numa poltrona folheando displicentemente uma revista. Meu Deus, que visão! Morena, cabelos lisos e brilhosos presos em coque, maquiada no capricho, ai meu jesuscristinho, por que não tenho mais de 20 anos e não sou rico?

 Cheguei a ter pesadelos com ela. No sonho, ela me traía com o piloto que ria de mim. Os dois riam, os safados. Acordei suado, pijama molhado, então parti para as palavras que consolam. Ainda bem que não tinha mais de 20 anos, não era rico e nem namorava a mulher mais bonita que vi na minha vida que me botaria um par de aspas graúdos da largura daquele Boeing.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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