A orquestra

27 jan • A Vida como ela foiNenhum comentário em A orquestra

A alma da instituição bar chope das décadas 60 e 70 era o garçom. Quando a casa tinha mais de um, a alma se dividia como células ou colônias de bactérias. Quando era um só, e bom, então ela se materializava no cara de camisa branca e calça preta e bandeja de alumínio que já carregou um oceano de chopes. Os ruins eram como gárgulas nos prédios antigos, a vida toda fazendo cara feia.

Eu conheci tantos, nossa! Mas um em particular merecia uma espécie de prêmio, o Ocrinho. Puxa o banco para ouvir essa bem sentado: o apelido era este porque Ocrinho usava óculos sem uma lente. Não de vez em quando, sempre. A tese da roda era que ele vivia sempre em bomba, então não se dava conta da perda.

Naqueles tempos, como diz a Bíblia, o sindicato dos bares e restaurantes chegou a criar um concurso para escolher o Melhor Garçom de Porto Alegre, então pensei em criar um concurso que escolhesse o Pior Garçom de Porto Alegre. Felizmente, para eles, alguém derrubou chope na pilha de bolachas de chope onde escrevi a minuta do regulamento. Desastre. Algo como a versão molhada do incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Logo que arranchei de vez em Porto Alegre, na rua Barros Cassal, libávamos muito no Bob’s, do seu Roberto, um pequeno bar na Cristóvão Colombo 36, o melhor croquete de peixe e melhor torrada que comi na minha vida, categoria “Como esses nunca mais”. Vendia cigarros americanos, giletes inglesas e desodorantes franceses aos fregueses. Saía do sério quando eu o chamava de “Creso em Cruz Ave Maria”. Logo ele, que carregava o nome do poderoso rei da Lídia na Grécia antiga vendendo bagulho.

Na década de 70, o Bob’s fechou de vez e deu lugar à boate do Isidoro. Certa noite, um grupo saiu do Chalé da Praça XV e aproou o Isidoro. Quando o porteiro abriu a porta, uma bela música ao vivo flutuou para a rua. Empolgado, e já mais alto que o Everest, o Durão botou as mãos em concha e gritou:

– Baixa champanhe para a orquestra!

Fez uma baita economia. A “orquestra” era apenas um cantor e seu violão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

« »