A noite dos tornozelos 

16 nov • A Vida como ela foiNenhum comentário em A noite dos tornozelos 

Pernas femininas na penumbra

– Nunca falhou, mas nunca falhou mesmo.

Se o cara estava afirmando isso com tanta convicção, devia ser verdade. Afinal, era um conquistador nato desde os tempos do colégio. Na época, ele já conquistava as alunas que eram desejo de consumo de todos eles. E ele era imbatível. Mulher que cruzasse o seu olhar estava morta na cama dele ou do motel. Tratava-se de um doutor honoris causa sexual. O conquistador havia desenvolvido um sistema que bastava olhá-la caminhando de costas.

Os cinco amigos bebericavam sentados numa mesa de danceteria, daquelas de botar mulherada pelo ladrão. O segredo, disse ele no início da conversa daquela noite, não tem segredo. Podia até reparti-lo com a turma, não era egoísta.

– Toda mulher que tem tornozelos finos é boa de cama – disparou. – Não é muito comum encontrar mulher com essa condição. Tem as que cumprem o ritual papai-mamãe, tem as tanto faz, tem as reprimidas, as atormentadas, tem de tudo. Claro que tornozelo fino não saiu voando para se agarrar no seu pescoço. Tudo depende da mão do artista. O ponto G da mulherada é o ouvido.

Todos esperavam o resto da história.

– Não significa tornozelo de garota magra. Tem que ser proporcionalmente, pro-por-ci-o-nal-men-te, entenderam?

Os amigos se entreolharam. Tão simples assim? E começaram a olhar as gurias de costas. E ele apontava, essa é, essa não é, a maioria não é.

Neste ponto, um mulherão que estava escondida em uma mesa próxima se levantou e foi em direção ao balcão. Espetáculo, coisa de cinema. As calças justas mostravam tornozelos finos e o detalhe não escapou ao olhar do eu-pego-todas. Claro que ele levantou e foi atrás dela. Para resumir o causo, em pouco tempo os dois conversavam animadamente e em 15 minutos saíram juntos para o combate de Eros. Nem tchau deu para a turma.

– Essa mulher eu conheço – falou um deles com voz soturna. – E conheço muito bem porque é freguesa fiel do salão de beleza da minha mulher.

– Então?

O outro sacudiu a cabeça.

– Não sei, se ela funciona bem na cama, nunca saberei. Mas o nosso faixa vai descobrir na cama.

Bebeu o chope numa sentada.

– Ela é travesti.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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