A madrugada do morto

14 mai • A Vida como ela foiNenhum comentário em A madrugada do morto

   – Fernandinho, me ajuda pelo amor de Deus. Eu não posso ser presa!

   Que coisa mais embaraçosa. Como poderia eu ajudar a mina na quadra do Bironha, jargão de gigolô dos anos 1960, que significava que ele tinha e mantinha  uma prostituta de rua? O que tinha acontecido naquela madrugada com a garota, de imediato, até arrancaria sorrisos. Mas o apelo desesperado dela não dava margem a graçolas. De fato, na vida de uma prostituta era uma tragédia.

   Eu estava no Palácio da Polícia, na avenida Ipiranga, fazendo minha rotina da madrugada como repórter, naquele frio inverno, quando o pepino apareceu. Eu a conhecia de vista, apresentada que fora pelo Bironha no bar Leão, na Rua da Praia. Ele era uma das minhas fontes do baixíssimo mundo, e fazia parte do ofício pagar cerveja nos nossos encontros.

   Ela não era alta nem baixa, nem feia nem bonita. Apenas uma garota suburbana perdida nas quebradas do mundaréu, que acabou por se prostituir e precisava de um protetor que a defendesse de outros gigolô naquele trecho do Centro. E também de outras mulheres, rivais cujo melhor argumento era uma navalha afiadíssima. Na falta dela, uma gilete servia. Eram grandes os perigos da rua.

   Pois acontecera algo trágico naquela madrugada, e ela não conseguira localizar o seu homem. E ela detida, nua, na dependência do Palácio da Polícia, nome que eu sempre achei ser sacada de um irônico de grau maior.

   – Tá, não prometo nada. Mas vou ver o que posso fazer.

 (Leia o final amanhã)

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