A cobra da guerrilha guasca

27 nov • A Vida como ela foiNenhum comentário em A cobra da guerrilha guasca

Cada vez que eu ouço a frase mais repetida por políticos e governantes nos últimos anos, “eu não sabia!”, a memória me despeja um acontecido nos idos de 1964. Um sindicalista do Vale do Caí, da extinta Viação Férrea do Rio Grande do Sul, famoso por sua devoção ao trabalhismo, aos doutores Jango, Getúlio, Brizola e Fidel Castro, foi um dos primeiros a entrar em cana quando os militares assumiram o poder.

Veio gente do Dops e o botaram num camburão rumo a Porto Alegre. Mal deu entrada naquele estabelecimento, cheio de gentis policiais, o ferroviário sentiu logo que a truta era graúda.
Devidamente instruídos pelo delegado, queriam saber qual o seu papel no Grupo dos Onze, organização capitaneada por Leonel Brizola e que pretendia criar uma guerrilha guasca à moda cubana. O preso jurou que nem mesmo conhecia o ex-governador, que nunca estivera com ele e não sabia nada dessa história.
Mais ainda, não saberia nem mesmo reconhecer o doutor Brizola se o visse ao vivo. Pelo menos assim jurou. Irritado, um dos policiais sacou de uma foto 18cm X 24cm, quase um pôster, na qual ele aparecia ao lado de um gesticulante Brizola num comício em São Leopoldo.
 – Ah não conhece? E esse daí é quem, seu enganador?
O ferroviário olhou bem a foto e disse que, sim era ele no palanque. E com a maior cara de pau disse que não conhecia o que falava no microfone. Bem próximo de um ataque de paroxismo, o policial não queria acreditar no que ouviu.
– E o outro é o Brizola, seu imbecil! – berrou o policial.
Com os olhos arregalados, o preso falou como se tivesse visto uma mula sem cabeça.
 – Virge Nossa Senhora! Ala pucha! Esse é o famoso Brizola? Fosse uma cobra tinha me picado!

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