A banalização do palavrão

30 jan • A Vida como ela foiNenhum comentário em A banalização do palavrão

 Tenho certeza de que a última palavra do último segundo antes de alguma morte violenta ou inesperada que os norte-americanos dirão é “shit!”, de tanto que a usam no dia a dia. Observem os filmes de Hollywood. Mesmo em uma história envolvendo freiras, a expressão é disparada a toda hora, até pelas bocas mais inocentes. Acho que, mais dia menos dia, os nenês dirão shit! um segundo antes de começar a chorar pela primeira vez.

 Já foi muito diferente. Quando gurizote “merda” era usada in extremis em alguma discussão entre rapazes. Falar merda na frente das gurias era pedir para perder a atual namorada ou a futura colimada. Em casa, Deus m’o livre. Meus pais mandariam eu lavar a boca com sabão, que era o conselho universal para quem falava palavrão – e merda era um bem forte.

 Filho da puta até hoje não se escreve em jornal. Na maioria das vezes, sai FDP, invenção do jornal alternativo O Pasquim, nos anos 60. Imagine chamar alguém assim, era convite para briga e, em caso de homicídio, podia-se usar até com a figura legítima defesa da honra. No mínimo, atenuante. Nas brigas da adolescência, filho da puta era atravessar a fronteira, a border line. Convite para o pau. Quando se perdia a briga, a salvação era usar uma frase não menos famosa.

 – Vou chamar meu irmão mais velho. Ele vai te cagar a pau!

 Geralmente, o irmão mais velho não se dava a esse trabalho. Nem tomava conhecimento, aliás. As expressões “bagaceira” e “muquirana” eram pecados veniais na arte da briga, mas podiam detonar uma guerra. Invertendo o ditado “quando um não quer dois não brigam” posso assegurar que, quando um quer, os dois brigam sim. E um apanha feio e quase nunca era o brigão.

 Vamos que você começasse a frequentar a casa da sua namorada, depois de semanas e meses até de namoro escondido, de beijos e de protótipos de amasso no escurinho do cinema. Lá está você (geralmente sábados à noite) sob os severos holofotes dos pais da menina e saísse um palavrão desses que hoje meninos e meninas dizem aos pais. Merda, digamos. Você era expulso do ambiente familiar na hora.

 Era uma boa hora para virar o vilão da moral e dos bons costumes.

Fernando Albrecht é jornalista e atua como editor da página 3 do Jornal do Comércio. Foi comentarista do Jornal Gente, da Rádio Band, editor da página 3 da Zero Hora, repórter policial, editor de economia, editor de Nacional, pauteiro, produtor do primeiro programa de agropecuária da televisão brasileira, o Campo e Lavoura, e do pioneiro no Sul de programa sobre o mercado acionário, o Pregão, na TV Gaúcha, além de incursões na área executiva e publicitário.

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