• O emprego de 30 segundos

    Publicado por: • 8 jun • Publicado em: A Vida como ela foi

    A burocracia brasileira conseguiu e ainda consegue despautérios em tal quantidade que explicam porque não somos invadidos por seres mais inteligentes de outras galáxias. Uma delas me deu um emprego de 30 segundos. Foi lá por 1978, quando de vez em quando eu era requisitado para ser ator de comercial de televisão.

    Deu-se que o Ministério da Agricultura baixou uma portaria ou coisa parecida proibindo salsichão de ser chamado de salsichão e sim de linguiça camponesa, sabe-se lá porque cargas d’água. Devia ser uma dessas medidas que só fazem sentido para os sacerdotes da ultraburocracia. O Frigorífico Costi, se não me falha a memória, encarregou a agência de fazer um comercial em que o personagem dizia que salsichão era salsichão mesmo que fosse uma linguiça camponesa.

    Minha fala era simples. Eu mostrava uma embalagem do produto e enfatizava várias vezes que a linguiça camponesa Costi era a melhor do mercado. No finalzinho do comercial, eu saia de quadro por alguns segundos e voltava para a frase final, dita com a palma da mão na boca como se confidência fosse:

    – “É linguiça camponesa, mas pode me chamar de salsichão”.

    Sonho em ver um comercial pegando algum tema do politicamente correto que abunda neste país que tivesse uma frase final parafraseando a do meu comercial

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  • Cãibra na célula

    Publicado por: • 3 jun • Publicado em: A Vida como ela foi

    É fascinante como o povão capta o sentido de algumas palavras mesmo errando feio na grafia. Sou um apaixonado pelo tema. Já contei aqui o caso de uma doméstica de estância do Alegrete que falava “letras de cãibra ”, porque certa vez ouviu seu patrão falar que investia em Letras de Câmbio, aplicação comum nos anos 1960.
    Agora vem outra preciosidade de outra cidade da Fronteira Oeste. É relativamente comum o pessoal do campo falar na “veia artéria”, mas eis que surge um upgrade gaudério. Leitora conta que ouviu falar no que deve ser uma nova descoberta em anatomia no campo da angiologia: a veia lautéria. Nos antigamentes, Lautéria era nome comum entre as mulheres.
    De outra feita, ouvi um relato de que um eletricista deixou uma “foto cela” sobressalente, caso a que está instalada num equipamento queime. Aqui mesmo na cidade grande meus ouvidos já captaram “imai”, “emel” e variações do tipo. Como dizia um vereador de cidade do Vale do Caí quando riam do seu português, “vocês entenderam, não entenderam?”
    Sim senhor, patrão. Entendemo, craro que entendemo

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  • A roupa nova do reizinho

    Publicado por: • 1 jun • Publicado em: A Vida como ela foi

    Até para se vestir esse país é complicado. E os diálogos com atendentes das lojas não raro beiram o surreal. Vejam essa. Jornalista porto-alegrense radicalizado – eu disse radicalizado mesmo – em São Gabriel veio à Cidade Grande Demais e se deu conta que precisava de camisas. Vai a uma loja do Centro de Porto Alegre e vê na vitrine camisa com dois bolsos em oferta. Bolso em camisa, sabemos todos, foi extinto em nome sei eu lá de que. Algum cretino fashion, certamente. Bueno. Ele pergunta ao atendente se tem tamanho GG ou 4, porque o jornalista em questão é verticalmente prejudicado mas tem ombros largos. O cara da loja o olha de alto a baixo, nem tão alto, aliás.

    – Essa marca de camisa tem que ser tamanho 5 e olhe lá. Experimente.

    O jornalista a veste e também o número 5 é pequeno.

    – O problema é que essa camisa é chinesa. Mas eu tenho uma nacional, mas só tem tamanho 1, e no seu caso a brasileira teria que ser 3.

    Vamos ver se entendi. Chineses mandam camisas para brasileiros sem dar pelota para nosso biótipo. Pelo visto, nem mesmo nadadores profissionais da China tem ombros largos. A loja brasileira só vende o tamanho 1 e teria que ser 3 para ficar bem no nosso pequeno mas largo homem.

    O macaco tá certo. Sem roupa não tem essa bronca toda

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  • O cara do caminhão

    Publicado por: • 29 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    Quando morreu o B.B. King, lembrei de um causo acontecido nos anos 1990, quando começou a onda de trazer bluezeiros americanos. Ele estava hospedado no hotel Alfred Porto Alegre, na rua Senhor dos Passos, que tinha um bar maravilhoso chamado Tyffany’s, decoração baseada no Harry’s Bar de Veneza. Um luxo. Sua época de ouro foi a partir do final dos anos 1970.
    Um guitarrista americano, homem de quase dois metros de altura cujo nome me escapa, tinha uma história igual a tantas outras. Um caminhoneiro negro que tocava blues como ninguém nas estradas dos Estados Unidos, até que alguém o descobriu, estava hospedado no Alfred. Certa noite estava eu no bar quando ele entrou, sentou numa mesa e pediu suco de laranja com rum. O barman o olhou com certa desconfiança quando ele fez o pedido.
    Outro freguês do bar sentou-se no piano e tentou, eu disse tentou tocar um boogie woogie. Sabem como é, usar a mão esquerda não é para qualquer um. Alguns compassos depois o bluezeiro se irritou, meio que tirou o cara a tapa do piano e, aí sim, ouvi maravilhado um BW à Luca Sestak. Depois que terminou, voltou ao seu suco de laranja com rum. Bati discretas palmas. O barman, que obviamente era zero em boa música, estava limpando um copo com um pano branco. Inclinou o rosto.
    – Quem é esse cara?
    – Um caminhoneiro- respondi.
    Ele terminou de polir o copo, colocou-o de volta na prateleira de vidro de costas para mim. Volteou a cabeça.
    – Logo vi.

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  • Pobre João

    Publicado por: • 27 mai • Publicado em: A Vida como ela foi

    O jornalista Gilberto Michaelsen, de Gramado, contou no site do colega Miron Neto que foi confundido com duas pessoas em um curto espaço de tempo. Da primeira vez o funcionário de um supermercado achou que ele fosse o prefeito; da segunda, um médico local o espinafrou achando que ele fosse o Miron.
    Lembrei de um acontecido dentro de um cinema nos anos 1950 em cidade do interior. O filme se desenrolava e um cara na plateia embestou que o espectador careca sentado na sua frente se chamava João. E comentava o filme com ele, era João pra cá e pra lá.
    – Ô João, tu viu essa do galã? Como pode alguém ser tão ingênuo!
    O da poltrona estava enlouquecendo, mas achou melhor não responder.
    – João, tu reparou que a mocinha só fingiu que beijou o namorado?
    Suspiro.
    – Mas que bosta de mocinho mais burro! Joãoêêê, como é que ele não viu a pistola na mão do cara, João?
    Ouvem-se soluços.
    – João de Deus, o cara é bom de briga, hein João!
    Ouve-se um choro convulsivo.
    – Tu já reparou que sempre tem gente espiando atrás da porta nesses filmes, hein João?
    O falso João levanta com tal velocidade que no vácuo quase arrasta a poltrona e senta numa poltrona no canto da primeira fila.
    Minutos depois ele recebe um tapa de mão espalmada na careca, acompanhado de uma voz com bafo de pipoca na nuca.
    Ah, tu taí, João? Tu sabe que tinha um cara igualzinho a ti sentado na poltrona da minha frente?

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